16.9.08

Sonho


Ele me pediu: "Deixa eu ir?"
E eu devolvi com um aperto apertado no coração: "Você promete que volta?"
Ele fez um "não sei" meio desconcertado. "Vai que eu gosto lá de cima", se desculpou. Então embraveci de uma vez: "Você é ou não é meu amigo?"
"Mas é meu sonho", argumentou.
Aí, achei melhor não insistir. Com sonho não se brinca. Soltei-o e, pouco a pouco, ele ganhou o céu.


PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Norte


(...) E, se precisar de mim, também poderei ser uma centelha de sonho nas travessias mais difíceis.

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Pedaços alados



A alegria incontida por te ver eu disfarço. Desvio despretensiosamente os olhos e perguntinhas bobas, inocentes, me salvam na hora H: "Tá calor, não tá?!" "Odeio frio e você?" "Será que vai chover?". E, depois disso tudo, bem mais à vontade, remendo num cantinho isolado o meu coração quebrado. "Tem cola aí?"

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Viver é sempre um barato

Eu juro que a história é verdadeira. Um garoto achou a coisa mais legal do mundo descer com sua cadeira de rodas no elevador do ônibus. Sim, porque ele sempre contou com a ajuda de estranhos que pegam de um lado, pegam do outro, balançam de cá, sacodem de lá e "ai, meu Deus, cuidado, senão eu caio"... e ufa! No final, dava tudo certo, mesmo com cadeira de rodas não combinando nem um tantinho assim com degraus de coletivo.

Mas o ônibus era "maneiro". Quem bolou aquele invento tinha um coração bem grandão e respeito por ser humano. O trocador fez um "jóia" pra ele, com jeitão de amigo, enquanto apertava os botões das engrenagens que colocavam em movimento o tal negócio. Bem que todo ônibus podia ter aquilo. O garoto sorriu meio tímido disfarçando o entusiasmo da novidade, nem ligando pro fato de ser como era.

A mãe também, com sorriso na cara, parecia contente de ver o filho se divertindo naquele lugar que nem era parque de diversão. Jamais vou me esquecer da expressão de alegria do garoto logo que o elevador começou a baixar. Desci do ônibus pensando em como Deus é sábio ao inundar de alegria o coração de pessoas que todos os motivos poderiam ter para ser infelizes.
PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Tão bom


Te ver parece sonho.

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

10.9.08

Meu segredo


Eu sou feito de tempo. Enquanto ele corre (o tempo!), eu descanso para me manter sempre jovem. E, quando ele se cansa (o tempo!), eu corro para viver - pois não posso perder tempo.

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Egotrip


Meu ego é do tamanho do mundo
Atrapalhou minha sorte com azar
Meu ego já assustou todo mundo
Eu amarrei, mas ele quer se soltar.

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Tears


Bem na hora do rush. Lágrimas solitárias. O barulho do trânsito abafou o som do choro. Não sei por que olhei para o lado e a vi em prantos. Dava para perceber que havia soluços. Ela chorava. Chorava muito.

Os vidros do carro estavam fechados. Buzinei. "Precisa de ajuda?", gritei. Mas não ouviu. Fiquei preocupado. Às vezes reclinava um pouco o corpo na direção do volante. Atônita.

Qual o motivo daquele choro? Talvez pudesse ter sido demitida. Talvez uma briga com o namorado. Talvez não. Talvez uma traição. Talvez uma despedida. Talvez uma doença. Talvez a morte. Talvez um sonho perdido. Talvez o rompimento e o início da dor do amor. Talvez nada disso. Talvez...

O sinal se abriu. Os carros arrancaram. Ela se foi. Levou o choro embora.

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Quando a bola não rola


Toda rua tem uma história de bola. Toda rua tem um vizinho ranheta que se esqueceu de que um dia foi criança. Toda rua tem uma faca afiada desse vizinho. Toda rua tem choro de moleque por causa de bola rasgada. Por que será que a vida é assim: quadrada?

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Alguém lá fora


"Socorro!" Eu gritei três vezes com a cara pra fora da janela. Não satisfeito, usei megafone: "Socoooorro!" De novo, nada aconteceu. Me convenci. E deixei pra lá. O amor além de cego, também é surdo.

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

6.9.08

Mó legal!


Tem um site que é muito legal! Eu recomendo. Clica aí então:

Mentira ou sonho?


A mentira é diferente do sonho. A mentira tem pernas longas, por isso quase sempre viaja pra longe. Mas o sonho é mais aventureiro, não tromba em ninguém e não machuca quem encontra pelo caminho. A mentira, no final, bate a cara numa parede dura, áspera e intransponível. Daí ela se esborracha feio e fica lá grudada no nada, sem graça, triste pra sempre. O sonho não! O sonho continua viajando, vendo novas paisagens, conhecendo mais pessoas, invadindo corações e magicamente distribuindo sorrisos nos rostos de todo mundo. O sonho atravessa muros, vence desfiladeiros e nunca abandona o seu dono.

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

2.9.08

O caçador


Meu melhor defeito: me apaixonar como um moleque caçador. Ou será que sou, na verdade, um "caça-dor"?

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Ou se brilho


Não sei se anoiteço ou se amanheço ou se enlouqueço.
Ou se adormeço. Ou se te esqueço.

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Pra que duvidar?


É porque lá em cima, eu bem sei, faz um tempo bom que só vendo. Não é bobeira minha, não. Tem sol luminoso, calor-altura e nó que se desfez em sonho... Estou falando! Basta imaginar tanta beleza que abre no sorriso da gente um dia lindo.

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Sem jeito de lua


Alguém já viu uma lua azul? Eu já. Ela tem luz azul. É uma lua com novidade. Ela brilha nua no meio da rua. É uma lua crua. Uma lua que queria ser céu... daqueles bem limpinhos, daqueles bem azuis! De tanta vontade, acabou assim, sem saber se brilha ou se azula! É uma lua maluca! Uma lua caduca. Quando faz um dia de sol, bem azul de verão, a lua azul se mistura com o azul desse dia e acaba que ninguém vê direito. Todo mundo pensa que ela é só mais um pedacinho do infinito. Bobagem ser lua azul. Se fosse eu, ia querer ser uma lua normal, dessas que aparecem mesmo com o sol. Seria, de cara, uma lua desafiadora, não uma lua conformada, imitadora de mar, invejosa de céu e de azul.

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

1.9.08

O milagre da corda bamba


Vou explicar como funciona: toda vez que fico triste, acontece no minuto seguinte uma coisa-surpresa que me deixa melhor. Eu não sei direito quem faz isso pra mim (ou por mim), se é Deus, se é o acaso, se é o mágico-amigo-dos-pobres-coitados-tristes... No final, até que sou feliz... mesmo que por um triz!

PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

30.8.08

Onde ela mora?


Bem, cada um dá um jeito de ser feliz como pode. Uns trabalhando feito loucos para juntar uma montanha de dinheiro, outros estudando até soltar alguns parafusos da cabeça (com perigo de perder as orelhas e um punhado de fios de cabelo), outros rangendo os dentes na academia (de tanto pegar peso pra ficar com aquele corpo!), outros gastando até o último centavo do salário para estar em todos os shows de axé que se tem notícia (nada contra o axé!).

Isso porque, na verdade, ninguém sabe ao certo o que é a felicidade. O que eu sei (ou acho que sei) é que a felicidade mora na gente. Tem hora que ela adormece, pára um pouco pra descansar (o que é normal!) e, aí, é uma aflição que Deus-me-livre. É quando a felicidade cochila ou tira férias que todo mundo fica perdido, à procura de caminhos...


PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA

Brincalhona das palavras


Lygia Bojunga Nunes: "Eu tenho que achar um lugar pra esconder as minhas vontades. [...] Às vezes, acho que é a vontade de crescer de uma vez e deixar de ser criança.".


LIVRO – a troca


Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena os livros me deram casa e comida. Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo; em pé, fazia parede, deitado, fazia degrau de escada; inclinado, encostava num outro e fazia telhado.

E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá dentro pra brincar de morar em livro. De casa em casa eu fui descobrindo o mundo (de tanto olhar pras paredes). Primeiro, olhando desenhos; depois, decifrando palavras.

Fui crescendo; e derrubei telhados com a cabeça. Mas fui pegando intimidade com as palavras. E quanto mais íntimas a gente ficava, menos eu ia me lembrando de consertar o telhado ou de construir novas casas. Só por causa de uma razão: o livro agora alimentava a minha imaginação.

Todo dia a minha imaginação comia, comia e comia; e de barriga assim toda cheia, me levava pra morar no mundo inteiro: iglu, cabana, palácio, arranha-céu, era só escolher e pronto, o livro me dava.

Foi assim que, devagarinho, me habituei com essa troca tão gostosa que – no meu jeito de ver as coisas – é a troca da própria vida; quanto mais eu buscava no livro, mais ele me dava. Mas, como a gente tem mania de sempre querer mais, eu cismei um dia de alargar a troca: comecei a fabricar tijolo pra – em algum lugar – uma criança juntar com outros, e levantar a casa onde ela vai morar.

(Mensagem de Lygia Bojunga para o Dia Internacional do Livro Infantil e Juvenil, traduzida e divulgada nos 64 países membros do IBBY).

Quer conhecer um pouco mais sobre a Lygia, uma das minhas autoras prediletas? Clique aqui.

29.8.08

Constatação


Hoje subi bem no alto da torre para ver o meu amor passar. Só que meu amor não passou. Bobagem a minha! Amor não passa mesmo. Nunca! Amor vem e pára na gente.


PEDRO ANTÔNIO DE OLIVEIRA