24.12.20

Feliz Natal!


Entre tantas mensagens lindas que recebi hoje de meus amigos, uma me tocou mais profundamente. E por isso resolvi postá-la aqui. Foi enviada pela Lindalva, uma querida colega com quem trabalhei durante muitos anos.  

Não importa sua crença. Este tempo tem sido de transformações pra todo mundo. Talvez você não tenha parado para pensar nisso. Mas todos esses acontecimentos, com certeza, possuem um significado enorme. O que será que precisamos aprender? Quem está nos ensinando? Será que deixamos nossa espiritualidade de lado em meio a tantos afazeres? E o invisível? Será ele nos chamando para uma reflexão?

Estamos nesta vida para algo maior. Vamos levar a sério nossa lição e nossa missão.

O melhor presente deste Natal não está à venda nas lojas. Longe ou perto, o importante é que estejamos juntos, que a presença seja sentida, que as energias do amor e da esperança sejam mais fortes que a ausência física.

Eu já fiz minha lista de desejos: vida, saúde, abraços, família, amigos, encontros, sorrisos e liberdade! Bem, esses são apenas alguns! Vamos sonhar com o melhor e alcançar!

Um feliz e abençoado Natal pra você e pra todos que são importantes na sua vida! Obrigado pelo carinho de sua presença na Torre Mágica! Venha sempre! A sua companhia é riso para o meu coração. E riso é luz!

Pedro Antônio de Oliveira

17.12.20

Nadador


O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, pássaro da água!

É a tua fina, ágil cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!

É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda.

E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento...

Cecília Meireles

10.12.20

Poema do beco

Beco do Batman, em São Paulo


Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

- O que eu vejo é o beco.

Manuel Bandeira

Conhece o Beco do Batman? Não? Clique aqui, então.

Escapulário


No Pão de Açúcar
de cada dia
dai-nos Senhor
a poesia 
de cada dia.

Oswald de Andrade

8.12.20

Bicho encantado


Este bicho é encantado: 
não tem barriga, 
não tem tripas, 
não tem bofes, 
não é maribondo, 
não é mangangá, 
não é caranguejeira. 
Que é que é, Janjão? 
É a Estrela-do-mar que quer me levar.

Jorge de Lima

Repenso o mundo



Repenso o mundo, segunda edição, 
segunda edição corrigida, 
aos idiotas o riso, 
aos tristes o pranto, 
aos carecas o pente, 
aos cães botas.

Wisława Szymborska

19.11.20

Invisivelmente, amor


Sei bem me camuflar
E assim ficar bem perto
Enquanto você agita o mar
E eu caminho pelo deserto.

Essa dor elegante
Que plantou dentro de mim
É um descontrolado gigante
Pisando no meu jardim.

Pedro Antônio de Oliveira

12.11.20

Todas as manhãs

Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Todas as manhãs acoito sonhos
e acalento entre a unha e a carne
uma agudíssima dor.

Todas as manhãs tenho os punhos
sangrando e dormentes
tal é a minha lida
cavando, cavando torrões de terra,
até lá, onde os homens enterram
a esperança roubada de outros homens.

Todas as manhãs junto ao nascente dia
ouço a minha voz-banzo,
âncora dos navios de nossa memória.
E acredito, acredito sim
que os nossos sonhos protegidos
pelos lençóis da noite
ao se abrirem um a um
no varal de um novo tempo
escorrem as nossas lágrimas
fertilizando toda a terra
onde negras sementes resistem
reamanhecendo esperanças em nós.

Conceição Evaristo

2.11.20

Sem barreiras para a leitura e a imaginação


Com todo mundo sem poder sair de casa, a bibliotecária Arlete de Menezes Leal criou o canal Biblioteca sem muros. O projeto começou durante esta pandemia como forma de aproximar os leitores do mundo das histórias. De forma leve, descontraída e muito inteligente, Arlete deixa o internauta louquinho para passear de novo entre estantes físicas repletas de livros e escolher uma aventura para ser sua companhia. Pode ser também um romance, uma obra de suspense ou de poesia. 
Tem dicas para todos os gostos! 

E um dos vídeos foi dedicado ao livro "Oreosvaldo, o Pássaro das Sombras" (Editora Lê), de minha autoria. Eu adorei! Clique aí, na imagem acima, para assistir, e conheça um pouquinho sobre a obra.

Acesse o canal no YouTube e fique por dentro de muitas outras resenhas incríveis!

Obrigado, querida Arlete Menezes! 
Fico até sem palavras para agradecer tanto carinho.

Pedro Antônio de Oliveira

31.10.20

Plenitude


Essa sensação que dá
De não precisar de mais nada
De estar sempre a gingar
Numa rede presa à Lua.

Pedro Antônio de Oliveira

25.10.20

Além do viver


Céu baixo, grosso, cinzento
e uma luz vaga pelo ar
chama-me ao gosto de estar
reduzido ao fermento
do que em mim a levedar
é este estranho tormento
de me estar tudo a contento,
em todo o meu pensamento
ser pensar a dormitar.

Mas que há para lá do sonhar?

Vergílio Ferreira

19.10.20

Breu


Quando a última estrela se apagar, 
quem conseguirá contar 
quantas mariposas bailavam 
no incandescente luar 
da lamparina?

Pedro Antônio de Oliveira

12.10.20

Haverá quem duvide...


O meu amor diz mentiras e inventa verdades
Com as tintas de um grande pintor
Se alguém me diz que ele pode me ferir com sua vaidade 
Eu prefiro não saber
Não acredito.

O meu amor, imperfeito ou perfeito,
Fui eu quem quis assim.

E sou feliz, sou feliz e sou feliz
E não me importa mais nada.

Maria Bethânia / Composição: Jaime Alem

Que seu coração volte a se lembrar


 Acima das paisagens de algodão,
sua estrela brilha e ainda espera por você.

Pedro Antônio de Oliveira

14.9.20

A primeira vez da idade


A vez que tive mais idade foi aos cinco anos. 

Meu pai, com solenidade que eu desconhecia, 
perante seus superiores hierárquicos, 
apontou e disse:

 Este é meu filho! 

E deu-me a mão coroando-me rei.

Mia Couto

1.9.20

Tecelã


No silêncio, 
a aranha tece sua estrada prateada 
rumo ao nada. 

No orvalho da madrugada, 
ela espera o futuro ali, 
sentada. 

Um dia, seu fio a levará ao sétimo céu; 
isso, sim, quando for uma aranha encorajada, 
gangorrando, dependurada, 
na pálida luz que iluminou seus labirintos.

Pedro Antônio de Oliveira

30.8.20

A menina dos potes de mel

Ela caminhava como uma estrela sozinha, deixada para trás pelos irmãos mais velhos. O sol era tão forte que, de vez em quando, ela parava um pouco à sombra de uma castanheira para limpar o suor que banhava a pele jovem de menina. 

A doçura daquela missão tinha muito a ver com os potes de mel que vendia. Tudo era produzido pelo pai, ferroviário, no quintal de sua casa. A mãe era tecelã, uma zelosa dona de casa com seus seis filhos. O pai, por força da necessidade, logo se revelou um habilidoso regente de uma orquestra feita de ouro. Passeava entre os caixotes de abelhas como quem protegia crianças num berçário. 

A filha mais nova se esforçava para convencer seus potenciais clientes.

– É ótimo para curar gripe, garganta inflamada, tosse e nariz escorrendo – dizia a garota completamente vermelha da quentura do meio da tarde. Tão pequena ainda, mas tão determinada a se tornar uma vendedora de respeito. Às vezes, botava os potes dourados no chão para conseguir escalar a ladeira.

 Compra, compra de mim um pote de mel. É muito bom para a saúde, curar chieira no peito, fortalecer menino que nasceu franzino e desgrudar pigarro esfolando a goela.

Não havia quem não se comovesse ao ver aquela mocinha frágil, custando a carregar a saborosa mercadoria, arrastando seus chinelos velhinhos sobre a terra grosseira.

 Quando a gente está quase gripando, minha mãe derrete bastante mel no leite quente, mistura umas folhas verdes e dá esse chá pra gente beber.

Animados, os crédulos fregueses perguntavam:

 É mesmo? E vocês melhoram?

E com a transparência de um pequeno anjo esquecido na Terra, ela respondia:

 Ah... nada!

Arrancando risos de todo mundo, diante de tamanha sinceridade, a jovem vendedora ia colecionando sorrisos de estranhos pelo caminho, enquanto via, um a um, os potes de mel desaparecendo da sacola. Ela voltava para casa com os bolsos cheios de dinheiro, na certeza de ter vendido muito mais que a doçura daquele néctar dos deuses, ao distribuir de brinde a leveza e a inocência da infância.

(Esta é uma história verdadeira. Minha mãe é a menina dos potes de mel.)

Pedro Antônio de Oliveira

29.8.20

Uma de minhas saudades


Minha avó amava aquela pilha de discos de vinil. Talvez, hoje, muita gente não faça a mínima ideia do que seja isso. Na lista de seus preferidos, havia um português que cantava o Carimbó e a saudade de sua terra. Um outro deixava vovó vidrada com sua música bonita sobre alguém sentado à beira de um caminho quase sem fim. Acho que a vó sentia muita falta do vô, quando escutava essa.

Ao voltar da escola, vovó cantava pra mim, batendo palmas: “Chegou o general da banda... ê... ê...! Chegou o general da banda... ê... a!”, da Elis, na maior alegria. Vovó, sempre musical. Ela também adorava rádio. Ficava abraçada a ele pelas longas horas da tarde.

Agora paro pra pensar e descubro que as canções pareciam um pouco a história dela. A vó passava horas ouvindo música. Pedia pra trocar o disco, repetir um e outro, ou desligar de repente, porque já estava cansada e queria puxar um cochilo.

Às vezes, tinha vontade de ouvir as minhas, bem na hora em que ela queria as dela. As pessoas diziam que eu era o santo da paciência. Mas, certa vez, me irritei porque vovó não deixava interromper seus LPs, e ainda botou defeito nos meus. Chateado, eu me tranquei no quarto, me fazendo de vítima.

De vez em quando, a vó recebia a visita de dona Maria. Antes de abrir a porta, eu penteava seus cabelos brancos, amarrotados de tanto ficar deitada. A vizinha chegava com intimidade de amiga. As duas conversavam e davam sonoras gargalhadas. Elas, quase da mesma idade, pareciam tão meninas, quando se juntavam para tagarelar. Era a luz da vida voltando a brilhar em seus olhos.

Se chovia forte, vovó mandava acender velas e todo mundo se reunia no quarto pra rezar. Confesso que aquelas orações me deixavam ainda mais apavorado, pois era sinal de que a tempestade estava feia.

Aos poucos, ela começou a arrastar devagarinho o chinelo pela casa. Com o tempo, era empurrada numa cadeira, uma espécie de carrinho de bebê para adultos. O fim se parece com o começo. Vamos desaprendendo um tanto de coisas e nos tornando mestres em outras. Os olhos ficam embaçados como um vidro suado de chuva.

Mamãe amassava o arroz com o feijão e preparava uma papinha, feito comida de neném. Mesmo assim, de vez em quando, ela engasgava. Era um deus-nos-acuda. Uma aflição! E, como toda criança, a cada dia, ela gostava mais e mais de ouvir histórias. Vovó não podia mais correr, não podia mais se arriscar pelo mundo. Tenho certeza de que era por isso que os livros pareciam aventuras reais que a levavam de volta para a emoção da vida.

Logo que ela começou a reclamar de umas fortes dores na barriga – e vovó nunca se queixava de nada –, alguma coisa me dizia: vêm aí dias cinzas e de silêncio. “Vó, quer que eu bote uma música?” – eu sugeria, lutando para afastar os maus pressentimentos. Ela não queria mais. Nem eu.

Os discos dela e os meus só voltaram a tocar naquela vitrola muito, muito tempo depois, quando a tristeza, distraída, ia sendo levada pelo tempo. Ficaram boas lembranças, coisas que os anos não conseguiram roubar de mim.

No dia em que vovó partiu, fui eu quem dei a notícia a dona Maria. Cheguei a cara na janela baixa da sala da casa dela e contei. Ela chorou, colocando as mãos no rosto, como se quisesse se esconder da pior dor do mundo.

Acho mesmo que os adultos devem renascer lá pelas terras da esperança, um horizonte iluminado por um sol feliz e amarelo, arco-íris, gramado aparadinho pra deitar e rolar, sem contas, sem fila, sem gripe, sem nada de ruim pra nos chatear.

Eu tenho muitas fotos da vovó. Todas alegres. Na caixa de recordações, lá estou eu, bem pequeno, zanzando pelo quintal, quietinho no colo dela ou posando nos dias de festa.

Já sonhei com ela várias e várias vezes. Em uma delas, a gente viajava num trem a vapor, por uma estrada cheia de curvas. Outra vez, eu visitava a vó num prédio bem alto. Subi centenas de degraus sem, ao menos, me cansar, uma sensação esquisita, como se estivesse escalando uma montanha para tocar uma estrela. Será?

Pedro Antônio de Oliveira

10.8.20

Desde que o samba é samba

 

A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba, é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite, a chuva que cai lá fora.

Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora.

O samba ainda vai nascer
O samba ainda não chegou
O samba não vai morrer
Veja, o dia ainda não raiou.

O samba é o pai do prazer
O samba é o filho da dor
O grande poder transformador.

Caetano Veloso

1.8.20

Meu ideal seria escrever...


Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “ai, meu Deus, que história mais engraçada!” E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa (que não sai de casa), enlutada (profundamente triste), doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – “mas essa história é mesmo muito engraçada!”.

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada como o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má-vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera, a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário (autoridade policial) do distrito (divisão territorial em que se exerce autoridade administrativa, judicial, fiscal ou policial), depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa (habitante da antiga Pérsia, atual Irã), na Nigéria (país da África), a um australiano, em Dublin (capital da Irlanda), a um japonês, em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou (introduziu-se lentamente em) por acaso até nosso conhecimento; é divina.”

E quando todos me perguntassem – “mas de onde é que você tirou essa história?” – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história...”

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

Rubem Braga