21.6.20

Um poema


Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

Miguel Torga

3.6.20

O grande erro


Eu juro que nunca fui um garoto violento. Pra ser sincero, na escola sempre estive mais para saco de pancadas do que mesmo para um facínora desalmado. Mas, quando vi, já estava dando um soco no nariz daquele menino que não conhecia e de quem nunca senti raiva na vida.

Lembro que ele estava mexendo com as meninas no corredor, antes de começar a aula. Daí, uma delas pediu que eu "desse um jeito" naquele chato. Foi quando o empurrei e deferi o golpe bem no rosto dele, um nocaute. Ele não reagiu. Apenas levou a mão ao nariz, provavelmente sentindo o calor do sangue a escorrer pela face. Jamais me esqueci daquela cena. Eu me senti um covarde, um verdadeiro pusilânime, principalmente porque o menino não revidou.

Aquilo não era uma briga nem era uma disputa. Não houve provocações, a história não era comigo. Pra que fui cometer aquela besteira? Aposto que doeu mais em mim do que nele. As meninas comemoraram meu gesto heroico, como se eu fosse um vencedor. Vencedor? Vencedor de nada! Se eu pudesse, voltaria no tempo. Creio que meninos sejam todos assim, incongruentes, estranhamente cruéis sem necessidade: sempre que encontram alguém mais fraco, tentam dominar, mesmo um sujeito como eu, uma verdadeira mosca morta para assuntos de guerra. Apanhar dói menos, infinitamente menos, concluí.

Devia ter pedido desculpas, dito a ele que tudo foi um engano, uma insanidade, que eu estava arrependido. Ou, quem sabe, oferecer meu nariz para que ele também pudesse dar um socão. Não fiz nada disso. Outra vez fui um fraco; outra vez, um perdedor.

O tempo foi passando e fomos crescendo. Algumas vezes eu o encontrei no ônibus. E ele me olhava com a cara fechada, olhar amedrontador como se dissesse que um dia iria dar o troco. Eu sentia só um dedinho de medo dessa hora chegar. Nunca chegou.

Anos mais tarde, eu já seria adulto. Uma garota grávida, que eu conheci menina dos corredores do colégio, pregaria seus olhos em mim, descuidadamente. A seu lado, um rapaz, um velho conhecido meu. Ele me olharia profundamente, segurando um cachorrinho felpudo em plena manhã luminosa de outono. Dizem que pra gente sempre se lembrar de alguém, mesmo que os anos se passem, basta fixar a atenção nos olhos. O olhar permanece igual. Tive a certeza disso. Era minha vítima, a do soco. Eu, o agressor, teria uma segunda chance: pedir desculpas, deixar que me desse um soco, falar que sou um cara bacana, que até hoje aquela agressão idiota doía demais em mim.

Meu coração bateria acelerado e eu me apresentaria. E ele se lembraria. E sorriria impressionado por eu ainda me recordar daquele dia, daquela cena. E ele aceitaria minhas desculpas e trocaríamos um aperto de mãos. E ficaríamos amigos. Uma amizade adiada em muitos anos. Que pena! Mas uma amizade que tinha de ser, que tinha que começar nem que fosse da maneira mais estranha possível, com um soco.

Ele parecia um cara bem divertido. Leve, talvez não quisesse revolver a poeira do tempo. O garoto, agora um rapaz, em paz, sorriu para minha mãe no momento em que ela passou perto dele e brincou com seu cãozinho. Ele foi gentil, devolveu o afago em seu pet com uma cara boa, a melhor cara do mundo. Eu permaneci vacilante, sem saber se puxava conversa com ele, se perguntava sobre aquele fato do passado. E a chance de novo se foi.

Se quer saber, esta é uma história real que ainda espera por um final, de preferência feliz. Se eu esbarrar outra vez com minha vítima, não vou deixar escapar a oportunidade de reparar meu grande erro. E aí, eu conto aqui. Prometo.

Pedro Antônio de Oliveira

24.5.20

Cadê você mesmo?


Seus olhos não eram assim os de uma vilã. E sua voz meio adocicada fazia cócegas nos meus ouvidos. Tão gostoso que me dava vontade de ouvir tudo o que ela queria me dizer. Não importa quanto tempo isso levasse. Pena que alguns vazios não se curam com música.

Não conseguia sentir raiva dela. Só um pouquinho de assombro. Ela me apareceu num dia triste. Acho um absurdo os dias tristes se parecerem com dias de verão, de céu azul e sol luzindo. Dias tristes deveriam ter, no mínimo, temporal com raios, vento gelado e pessoas metidas em suas casas.

Saudade era uma menina. O nome dela não era Verônica, nem Catarina nem Carolina. Era Saudade.

– Se você achar estranho, pode me chamar de Aluana – ela sugeriu.

– Aluana?

– Hum-hum. É uma mistura de A Lua + Ana. Sempre achei bonito.

Eu disse para Saudade ou Aluana que ela era cruel, esbanjando aquele sorriso todo num dia em que eu não estava bem. Ou era deboche? Mas falei isso sem mágoa porque ela possuía um frescor que ia muito além do balanço que tinha nos cabelos.

– Eu não sou malvada. Veja! Eu pareço um monstro?

O pior é que não parecia mesmo. Linda, nem ruiva nem morena, apenas uma menina.

– Garoto, deixa de ser bobo. Vou te mostrar uma coisa que você vai amar.

– Garoto? Eu já sou um adulto. Não sou mais menino.

– Você está enganado.

– Não, não estou não. Olhe pra mim.

– Estou olhando, ora!

– Então, não vê que já sou velho, que já vivi uma porção de histórias tristes?

Aluana tirou de sua bolsinha prateada um espelho, que ficou gigante de repente.

– Observe você mesmo. É assim que você é.

Minha surpresa foi tão grande que só faltei desmaiar.

– Me diga com o que se parece? Com um vovô gagá?

Incrível, minha aparência era a de um garotinho. Um menino de sete, oito anos...

– Mas eu não sou essa criança aí.

– Pare com isso. Não sou eu quem está dizendo. É você quem se vê agora neste espelho – advertiu Aluana.

– Tem razão. Eu virei um menino – concordei.

– Errado. Você sempre foi esse menino.

Pedro Antônio de Oliveira

21.4.20

Instituto Educacional Missão Paz promove encontro literário virtual sensacional!


Os estudantes do quarto ano do Instituto Educacional Missão Paz leram meu livro "Oreosvaldo, o Pássaro das Sombras" (Editora Lê) e participaram de um bate-papo eletrizante via internet no dia 15 de abril. Pena que não foi possível ir até a escola, conversar pessoalmente com a galerinha e abraçar todo mundo, como geralmente tenho o prazer de fazer. O momento agora é de se proteger contra a Covid-19 e manter o isolamento social. A professora Renata Moura foi quem comandou os trabalhos literários.

A garotada foi incrivelmente demais nas perguntas, no carinho e na interação! Permanecemos juntos por mais de uma hora, compartilhando ideias e nos divertindo muito.

Obrigado ao Instituto Educacional Missão Paz pela oportunidade! Fiquei muito feliz ao saber que os alunos gostaram das aventuras do nosso poeta e blogueiro misterioso, o Pássaro das Sombras! ♥

Quer saber mais? Clique aqui e leia.


Pedro Antônio de Oliveira

16.4.20

Penso nisso amanhã


Um dom
Não me negar a ser feliz
Aprendi
Posso ser rico sem tostão
Quero é muita história pra poder contar
Da vida nunca fugi
Mas se ela fica complicada
Penso nisso amanhã
É bom poder ser dono do nariz
Aprendi
Mas vou ser sempre um aprendiz
Numa foto não dá pra guardar
O que você é pra mim
Nosso caso quero viver agora
Não deixo pra amanhã
Oh, oh, oh...
Não deixo pra manhã.

Paulinho Lima / Nico Rezende

2.4.20

Pedido


Se notar que eu estou crescendo, me volte logo no tempo, ó, Senhor de Todos os Mistérios. 
Quando começar a me cansar de tudo, vou precisar ver a vida como na primeira vez.

Pedro Antônio de Oliveira

Este vídeo lindo foi feito por minha amiga Angelica.
Siga no Instagram e no Facebook: @cafemeexpresso

(Este pensamento foi publicado neste blog em 12/9/2009. Clique e relembre. E, segundo a Angelica, desde a primeira vez que ela o leu, essas palavras nunca saíram da cabeça e do coração dela. 
Obrigado, querida Angel!)

27.3.20

Aquele mundo mais bonito


Gira, rosa dos ventos.
Quem sabe voa vindo da janela
um daqueles dias perdidos.

Hoje deu saudade de uns abraços
e de ver sem medo aquela nuvem branca em formato de girafa
dos céus azuis das minhas infâncias.

O que é mesmo a vida
com todo aquele amontoado de coisas que carregamos apressados
pelo tempo afora,
se agora
quase nada serve para preencher uma imensidão?

Pedro Antônio de Oliveira

Quase sem querer


Tenho andado distraído
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente
Sou tão tranquilo e tão contente.

(...)

Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos
Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto.

Eduardo Dutra Villa Lobos / Marcelo Augusto Bonfá / Renato Manfredini Júnior / 
Renato da Silva Rocha

14.3.20

Paragens e velhos mistérios


Sol, solidão, cachorro, alegria, macarrão, vento, amigos, distância, bicicleta, noite, estrelas, música, espinha, sonho, chão, céu, mãe, pai, perfume, margarina, infância, sorte, Deus, ilusão, tristeza, velocidade, leitura, acaso, proteção, dor, escuro, tempo, inocência, benevolência, segredo, chocolate, mistério, borboleta, horizonte, saudade, arco-íris, férias, descanso, passado, mar, ônibus, bola de sabão, reencontro, beleza, ventilador, chiclete, lágrima, alívio, sorriso, sábado, clube, computador, maçã, calor, alô, amor, medo, abraço, árvore, paixão. 

É a vida.
Pedro Antônio de Oliveira

12.3.20

Escuridão?


Era uma daquelas tardes quentes e abafadas de março. Saí da escola louco para tomar o ônibus e chegar logo em casa. Já me preparava para atravessar uma avenida quando vi um casal de cegos. Tive dúvida: será que me ofereço para ajudá-los? A esquina era perigosa. Passavam veículos em alta velocidade. Resolvi me aproximar, porque senti um certo desconforto ao vê-los parados ali, na minha frente.

“Ei, vocês querem uma ajudinha?” O rapaz disse “sim”. A menina segurava seu braço. Formamos um trio simpático em plena tarde calorenta. “Mas eu acho que devemos esperar um pouco, porque o sinal está aberto para os veículos”, falei procurando ser divertido e familiar. O moço concordou com um “tudo bem” descolado e continuou o papo com a garota. Achei melhor assim. Daí, me senti mais à vontade. Isso durou só um segundinho, porque, no momento seguinte, pensei que pudesse estar atrapalhando o papo dos dois, sendo, digamos, um pouco intruso.

Esperei o sinal ficar verde para pedestres. Uma pequena dose de cautela não faria mal algum. Que graça tem virar boliche humano? E, depois, parecia que os dois não estavam assim, com tanta pressa.

Ao fim de uma pequena eternidade, o sinal fechou para os carros e começamos a travessia. O rapaz me segurou pelo braço. Parece ser essa uma boa tática dos deficientes visuais, porque você acaba indo à frente, e eles não se sentem presos, tendo alguém como referência para seguir o caminho.

Terminamos as duas faixas de avenida, e ele se despediu da moça, que disse que seguiria por outra rua. Não perguntei seu nome. Pensei ser intimidade demais. Ele quis saber onde eu estudava, e eu expliquei. O rapaz não fez comentários. Espero não ter soltado besteiras do tipo: “ah, minha aula é ali, naquele prédio azul do banco tal...”. Subimos conversando sobre os buracos na calçada. E ele concordou, contando que havia trechos ainda piores em outros pontos da cidade.

Eu, cheio de cuidados, e ele parecendo mais firme nos passos que eu. Falei que seguiria até mais à frente. E ele, que ficaria na próxima quadra. Caminhamos um bom tempo em profundo silêncio. Logo chegamos à tal esquina. E qual não foi meu espanto? Não precisei falar que havíamos chegado. Simplesmente, ele sabia. Então ele me agradeceu, largou meu braço e se virou, descendo a rua. “Vai com Deus”, me despedi.

Fiquei intrigado. Prossegui em direção ao ponto de ônibus, imaginando mil coisas. Talvez ele contasse os passos ou aguçasse a audição. Eu me lembrei do caso de uma senhora. Apesar de não enxergar, ela passava roupas com habilidade, sem se queimar ou estragar o tecido, segundo minha mãe.

Desatento, tropecei num paralelepípedo saliente e quase meti os joelhos no chão.

Pedro Antônio de Oliveira

29.2.20

Por onde for


A graça se revela em harmonia
Alvorecendo a beleza em cores
Quero levar você em todo dia
A vida inteira na estação das flores.

Descanso o teu olhar no meu sem dizer adeus
Que o tempo põe a mesa pra nós dois...

Lorena Chaves

24.2.20

Uma história real sobre anjo


Descobri que tenho um anjo da guarda. Nas horas de aperto, dizem que é só chamar por ele.

Uma vez, na saída de um shopping, dois zonzos, meu primo e eu chamamos a atenção de meio planeta; ai que vergonha! Quase fomos atropelados. Sorte que eu o puxei pela camisa. O som da freada do carro foi horrível! Até hoje ecoa em meus ouvidos. Depois daquela façanha, com um pouquinho mais de treino, poderíamos facilmente seguir a profissão de dublê. Mas fiquei pensando... será que foi o anjo? Será que foi ele quem soprou no meu ouvido: “segura aí esse distraído ou ele vai quebrar umas costelas!”?

Quantas vezes, bem na hora de sair de casa, perdi minha carteira ou as chaves e, por isso, ficava um tempão procurando os objetos desaparecidos. Será que era o anjo me atrasando para evitar algum acidente ou assalto? Anjo faz isso? Bagunça a vida da gente pra nos livrar de apuros? Ou são simplesmente minhas trapalhadas? Dizem que se a gente não ligar pra ele, o coitado do anjo fica sem graça, se sente esquecido, pensando que não é importante e, daí, acaba dando no pé.

Um dia, quando ia pra escola, aconteceu algo também bastante esquisito, desta vez, esquisitíssimo. Era uma manhã dessas normais, após uma noite de muita chuva, em que os semáforos, alucinados, ignoravam a pressa dos carros e dos pedestres.

Quando percebi que o sinal de trânsito não estava funcionando direito, fiquei nervoso. Foi como se as lembranças do quase-atropelamento em frente ao shopping brotassem de novo na minha cabeça.

Depois de algum tempo, consegui atravessar uma das faixas e fiquei no canteiro central, esperando uma oportunidade pra me livrar daquela fria. O vento dos automóveis e o barulho dos motores me davam arrepios.

Alguns malucos aventureiros se arriscavam, tirando lasquinhas nos veículos, e os veículos tirando lasquinhas neles. Meu coração pulsava de medo, querendo fugir pela boca. Ao meu lado, um desconhecido puxou conversa e alertou: “Cuidado, garoto, não atravesse agora!”. Olhei pra ele e pensei: “quem é esse sujeito, meu Deus?”. Ele continuou: “Espere só um pouquinho. Logo a gente consegue atravessar com segurança. Eu morro de medo. Você não?”. Nem respondi, porque fiquei surpreso com aquele estranho falando comigo.

Bem, e foi assim que, após alguns segundos, cruzamos a via juntos. Fomos em silêncio pela calçada. Àquela altura do campeonato, já havia me acalmado. Até me esqueci do medo e troquei duas ou três palavras com o tal cara. Meu ônibus surgiu e me apressei pra não perdê-lo. Antes, resolvi me despedir do rapaz que atravessou comigo a avenida; afinal, ele tinha sido simpático.

O ponto estava lotado e não consegui mais avistá-lo. Entrei no lotação, passei pela roleta com o olhar fixo na multidão lá fora. O homem tinha desaparecido. Mas, como? Pra onde? Não havia outro ônibus no qual ele pudesse ter se metido. Não havia outra rua pela qual ele pudesse ter seguido.

O coletivo arrancou devagarinho e meu pensamento de novo se perdeu de espanto. Será que era ele, meu anjo da guarda dando sopa? De novo?

Pedro Antônio de Oliveira

Curiosidade: Dizem que meu anjo da guarda se chama Haiaiel. É fácil descobrir. Existem muitos sites por aí que revelam quem é seu anjo da guarda, bastando informar a data de nascimento. O anjo Haiaiel confunde o mal e ajuda todos que querem se livrar de pessoas que praticam a maldade. Incentiva a ter garra e perseverança na luta em favor da paz e para alcançar os objetivos na vida. O influenciado por esse anjo será livre de perversidade ou negatividade. Ele trabalha para Deus com inteligência e coragem para superar a opressão e a servidão. Terá a proteção divina para tomar a decisão certa. Libertará os fracos e oprimidos superando as adversidades. Protege e leva à vitória, com braveza e coragem.

21.2.20

À sombra de um jatobá


Raios de sol na varanda
Verde cobrindo o jardim
Poder sentir a vida espreguiçar.

Com o cheiro da madrugada
Dama-da-noite, jasmim
Olhar no céu estrelas pra contar.

Ter meus amigos comigo
Quem amo me amando, sim
Longe do amor de quem nos finge amar.

Ver na manhã de um domingo
Meu filho sorrir pra mim
Depois dormir à sombra de um jatobá.

Poucas coisas valem a pena
O importante é ter prazer
Longe de mim a inveja e a maldade escondidas na vida
Hoje estamos nós em cena e não há tempo a perder
Pois tudo acaba mesmo sempre em despedida.

Toquinho

16.2.20

Telhados de Paris


Venta, ali se vê
Aonde o arvoredo inventa um balé
Enquanto invento aqui pra mim
Um silêncio sem fim
Deixando a rima assim
Sem mágoas, sem nada
Só uma janela em cruz
E uma paisagem tão comum
Telhados de Paris
Em casas velhas, mudas
Em blocos que o engano fez aqui
Mas tem no outono uma luz
Que acaricia essa dureza cor de giz
Que mora ao lado, mas parece outro país
Que me estranha, mas não sabe se é feliz
E não entende quando eu grito
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
O tempo se foi
Há tempos que eu já desisti
Dos planos daquele assalto
De versos retos, corretos
E o resto de paixão, reguei
Vai servir pra nós
E o doce da loucura é teu, é meu
Pra usar a sós
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
Venta...
Venta...
Venta...

Zélia Duncan

10.2.20

Só você vai entender


Eu gosto de coisas galácticas. 
De estrelas, cometas, planetas e luas. 
Amo também naves imperiais que me levam de futuro a futuro. 
E por lá, não há motivos para temer.
Até nem me lembro direito das coisas tristes que já vi pela TV. 
Eu converso em várias línguas com gente de canto a canto do infinito. 
Ah... viajar é tão bonito. 

Pedro Antônio de Oliveira

Uma abraço de coragem


E dizem que um anjo trazendo um sol nas palavras ergueu o menino.
Foi numa manhã de domingo, aparentemente comum.
Com seus poderes de anjo, falou entre um sonho e outro, no restinho de sono, coisas tão bonitas que pareciam água matando a sede. O menino achava que já tinha perdido toda aquela ilusão que o acompanhara desde os primeiros passos. O menino achava que já tinha perdido. Mas ele se esqueceu do anjo que nascera antes dele e que, lá das altas nuvens, tinha feito uma promessa: jamais abandonar seu protegido. O anjo, antes de mais nada, era seu melhor amigo.

Pedro Antônio de Oliveira

1.2.20

O crime não compensa



Nunca suportei ver alguém ao meu lado mendigando cola. Esse meu coração de manteiga de garrafa ainda iria me botar em maus lençóis, era só questão de tempo. Bastava começar a prova e eu podia dar adeus ao sossego. A todo momento, chegavam papeizinhos e cochichos suplicando as respostas das questões. Todos com cara de cachorro que caiu da mudança e esfolou o focinho. Alguns, mais desesperados, só faltavam derramar lágrimas.

E foi assim que um belo dia a professora de Português descobriu que minha prova e a de uma protegida, leia-se: “coleguinha sanguessuga”, estavam identicamente iguais. Oh, céus! Que coincidência! Fiz cena de espanto misturada à de pobre coitado, vítima em último grau daqueles aproveitadores, embora estivesse tremendo de verdade.

A enfurecida mestra nos deu um minuto e meio para uma exibição de nossas técnicas de telepatia. Só assim, para eu me livrar da acusação de cola, já que nossas provas estavam perfeitamente cara de uma, focinho da outra, até na posição das vírgulas.

Eu poderia ter dito que éramos irmãos, digamos, quase siameses, e que por isso fazíamos tudo quase sempre igual, de tanta afinidade e frequência positiva de energias, mas não ia colar.

Fiquei triste porque todo o meu passado de glórias escorria pelo ralo. O que adiantou tanto esforço nos saraus de poesia, na peça de teatro e nas apresentações de trabalho, se havia me tornado oficialmente, em poucos minutos, um criminoso comum, um legítimo colador.

Ela ameaçou:

_ Então, por enquanto, os dois estão com zero. Se não aparecer o culpado, os dois fazem de novo a prova, OK?

OK nada. Estava num mato sem cachorro. Não tinha coragem de entregar a M. (prefiro assim, não citar o nome dela). Afinal, ela era minha amiga. E, no fundo, no fundo, eu também era culpado, porque poderia simplesmente ter me negado a passar a cola. Por estar sempre tão disposto a ajudar todo mundo é que acabei mantendo essa rotina criminosa em sala de aula. Por milésimos de segundo, fiquei com um pouco de raiva dela por ter me colocado naquela fria. Eu não precisava passar por aquilo.

_ E aí? Vão permanecer calados?

Meu coração disparou. Não estava acostumado a ouvir a professora falando naquele tom. Arrisquei e quebrei o silêncio:

_ Professora, eu não colei de ninguém, disse pausadamente, em tom forte, mistura de medo e raiva.

Minha colega, pivô de todo aquele tribunal de justiça, cavou minha liberdade:

_ Fui eu, professora. Eu errei. Pode me aplicar de novo a prova.

Ufa! Respirei aliviado. Que ironia! Uma cola me fez aprender a lição.

Pedro Antônio de Oliveira

29.1.20

O cinza das rosas


Cuidei delas com carinho. Toda tarde, namorava os botões dourados de fim do dia, à espera de uma explosão de pétalas e cores. O vento sacudia o caule e eu morria de medo de que elas se desmanchassem de repente. Podei muitas vezes seus excessos. Molhei a terra seca em meados de agosto, tempo em que a chuva se esquece da gente, deixando tudo nublado de poeira.

Mas foram aqueles meninos, os piores vilões da rua, sórdidos e invencíveis, que puseram fim ao meu poema maior. A rechonchuda invadiu o jardim num chute certeiro, num arremesso feroz, atingindo em cheio minhas bailarinas.

Tudo aconteceu bem diante dos meus olhos. As flores, amassadas, agonizaram no chão. E, por cima, lá estava ela, aquela assassina horrorosa. Nem foi preciso chamar os agressores. Três caras lavadas apontaram nas frestas do muro. Um deles perguntou se uma bola havia caído por ali.

Apenas abri o portão e os deixei entrar. Sem dizer uma só palavra, apontei o estrago, cobrando, com o silêncio e o choro contido, explicações para tanta maldade. Eu estava tão triste que os garotos notaram meu jeito.

O mais jovem retirou a bola de cima das roseiras amarrotadas. Sobrou apenas um botão. A bola não se machucou. Os espinhos não se defenderam, pois ainda não tinham aprendido a guerrear.

Os meninos foram embora sem dizer nada. Nunca me esqueci daquele dia em que minha paz foi ameaçada.

Pedro Antônio de Oliveira

26.1.20

Para a vida toda


Eu tenho uma amiga que garante que sou para ela uma espécie de mago-professor. Não me lembro direito de uma porção de coisas que ela me conta, mas deve ser tudo verdade. Afinal, ela tem uma memória de elefante nerd: guarda as datas de aniversário de todo mundo e decorou dezenas de letras em inglês de seus cantores favoritos. Pra mim, isso é uma proeza.

Uma de suas mais valiosas lembranças é que eu teria ensinado a ela a amarrar o cadarço do tênis. Aquele lacinho passando engenhosamente um dentro do outro, formando uma borboletinha. Algo sublime, ela garante, porque sempre sonhou em amarrar o calçado sem a ajuda dos outros, e nunca conseguia. Ora veja, que bobagem sem fim (pra mim). Pra ela, não! Porque ela, logo que venceu esse desafio, sentiu-se mais livre do que se tivesse experimentado um voo de paraglider sobre o Atlântico. Mais que isso, parecia ter se tornado a própria asa delta sobre o mar.

Segundo essa minha amiga, também a teria ensinado a andar de bicicleta, a jogar damas, videogame... e mais uma porção de coisas simples e incríveis. E a primeira vez que foi ao teatro, a um show de patinação no gelo, trem fantasma e ao circo, adivinhe quem a convidou?

Pois bem, essas primeiras vezes também guardam algo de recíproco. O meu primeiro engasgo quase mortífero com pipocas foi ao lado dessa amiga. Imagine nós dois debaixo da mesa da cozinha, numa folia maluca, quando uma sapeca pipoquinha travou meu fôlego, querendo acabar com a festa.

Quase caminhei por aquele túnel branco resplandecente, com uma luz na ponta, o qual todo mundo assegura que vê quando se está à beira do além. Eu pulei feito uma legítima pipoca de panela. Fui ficando roxo, roxo... e me arrastei até o filtro, implorando por água e ar. E minha amiga, gente, delirando de rir. Ela nem esticou o braço para me salvar.

Depois que o pânico da morte passou, ela só conseguia enxugar as lágrimas da convulsão de risos. Eu devia ter riscado seu nome da minha lista de amigos com uma caneta esferográfica vermelha, mas ela é tão especial, tão amiga que...

Pedro Antônio de Oliveira

16.1.20

Saudade


Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.

Mia Couto

23.12.19

Canto de Natal


O nosso Menino
Nasceu em Belém
Nasceu tão somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso Menino
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz
O nosso Menino
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino
Louvemos a glória
De Jesus Menino.

Manuel Bandeira

Doar-se


É urgente que as pessoas se amem
sem vergonha e sem tristeza
Que se amem com orgulho...

É urgente partilhar o pão e o corpo
com a claridade da terra molhada
nas manhãs de sol.

É urgente assumir a verdade.

Manuela Amaral

20.12.19

Missão de amor sobre a Terra


Encontrar a paz no improvável
Encantar-se com o belo no impreciso
Descobrir o respeito na diferença
Sonhar todo dia com o novo
Não perder a esperança na aflição
Não se endurecer diante da injustiça
Não se conformar com a violência.

Pedro Antônio de Oliveira

Contemplação


O tempo é uma criança
que o eterno em sua dança
balbucia
sobre o abismo
que anima este eterno movimento
sopro do vento e um centro fixo:
poço do infinito.

Dora Ferreira da Silva

A libertação


Quando abri meus olhos para este mundo
e recebi sua luz, o movimento,
a comida, o amor, e toda palavra,
quem me diria que em todos os lugares
quebra o homem os acordos com a luz
constrói e continua com castigos.

Pablo Neruda

27.10.19

Saio por aí juntando flor por flor


E se eu quiser dizer que o universo
É feito pra você, só pra você
E se eu quiser dizer que o universo inteiro
Mora em você, só pra você
Assim como eu.

Cataflor - Tiago Iorc

7.10.19

Quando nos arrancam do chão


Polaroid - Jonas Blue

Às vezes os olhos da gente fotografam e o coração registra. Quantos sorrisos nos arrebatam sem ao menos sabermos o porquê. E vamos seguindo pela vida afora apenas imaginando qual o som daquela voz, qual será seu nome, seus sonhos, seu lugar no mundo. Misturados à paisagem, somos apenas uma foto vista de longe, a felicidade camuflada entre as muitas pessoas que passam, depois daquele encontro furtivo.

Pedro Antônio de Oliveira 

10.9.19

Natureza em perigo: Até quando?

Foto: EBC
A ocorrência cada vez mais frequente de catástrofes e de eventos climáticos, ameaçando a existência da humanidade, obriga-nos a refletir e a criar políticas de proteção ambiental, de forma a controlar o próprio clima e proteger o futuro do planeta. 

Está na hora de encarar o risco de nossa extinção. E está claro que nenhuma autoridade ou país resolverá o problema sozinho. A natureza está enviando recados. Todos estão avisados, mas ninguém se importa com o aumento de temperaturas, mudanças nos padrões climáticos, derretimento da calota polar, desgaste do solo, contaminação química de nossas terras e água, tampouco com a Amazônia em chamas e brasas, transformada em cinzas e fuligens. 

E justificar tragédias como vontade divina é tirar do homem a responsabilidade por suas escolhas. A natureza está enviando seus recados: se o sol não nascer amanhã, não é o fim do mundo, é o inicio!

Laurimar Rosa de Lima

De acordo com os dados do Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o mês de agosto de 2019 foi o que contou com o maior número de focos de incêndio na Amazônia nos últimos nove anos. Na comparação do período entre 1º de janeiro e 31 de agosto, a elevação foi de 111%. nesse contexto. O estado do Acre é um dos mais afetados.



15.6.19

Escola da vida


Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida.
Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade

Colégio Franciscano Sagrada Família recebe de novo o "Pássaro das Sombras"

Fotos: Paula Fabrícia
Nem sempre eu tenho a oportunidade de estar com o leitor, conversar com ele, saber se gostou do livro, matar sua curiosidade a respeito de algum aspecto da história... enfim, sentir a energia de quem nos dá a honra de apreciar o que escrevemos.

Muita gente pensa que o autor é alguém distante, inacessível, que mora em outra cidade, ou mesmo um sujeito já bastante velhinho, que se isolou numa floresta ou no alto de uma montanha, só para produzir seus escritos. Que nada! Os autores estão por aí. Jovens ou vividos, vários guardam a empolgação de uma criança e costumam sair, sim, pelo mundo afora, ao encontro de seus maiores tesouros: os leitores.

Pela segunda vez, em menos de um ano, recebi um convite do Colégio Franciscano Sagrada Família, da Rede Clarissas Franciscanas, para um bate-papo com as turmas do quarto ano que leram o "Oreosvaldo, o Pássaro das Sombras", da Editora Lê.

Teve muita pergunta bacana, risadas e uma sessão de autógrafos. A meninada, inspirada pelo ilustrador da obra, Maurizio Manzo, criou lindos desenhos das personagens da trama, que enfeitaram vários pontos da biblioteca, local de nosso debate.

A garotada recebeu marcadores de páginas e um passatempo do "Pássaro das Sombras", que eu mesmo criei, contendo labirinto, caça-palavras, carta enigmática e poeminhas inéditos.

Não tenho palavras para agradecer a recepção calorosa dos estudantes e das funcionárias desse colégio tão simpático! Meu muito obrigado superespecial às professoras Talita e Gisely e às queridas Lindaura e Arlete, da biblioteca.

A todas as instituições que adotam meus livros, minha gratidão! Sei que diversas escolas já trabalharam com minhas obras por vários anos seguidos e ainda continuam me prestigiando.

Um afetuoso abraço!

O bate-papo aconteceu no fim do mês de maio e reuniu dezenas de alunos na biblioteca. O espaço foi todo decorado com a arte produzida pelas crianças cuja inspiração partiu das aventuras do poeta misterioso, o Pássaro das Sombras.


Pedro Antônio de Oliveira

25.5.19

Pensar é difícil, é por isso que as pessoas preferem julgar


“Pensar é difícil, é por isso que as pessoas preferem julgar “, escreveu Carl Gustav Jung. Na época da opinião, quando tudo é julgado e criticado, muitas vezes sem uma base sólida, sem uma análise prévia e sem um profundo conhecimento da situação, as palavras de Jung assumem maior destaque, tornando-se quase proféticas.

Julgar nos empobrece

Identificar o ato de pensar com o ato de julgar pode nos levar a viver em um mundo distópico, mais típico dos cenários imaginados por George Orwell do que da realidade. Quando os julgamentos suplantam o pensamento, qualquer indício se torna evidência, a interpretação subjetiva torna-se uma explicação objetiva e a mera conjectura adquire uma categoria de evidência.

À medida que nos afastamos da realidade e entramos na subjetividade, corremos o risco de confundir nossas opiniões com os fatos, tornando-nos juízes incontestáveis – e bastante parciais – de outros. Essa atitude empobrece o que julgamos e empobrecemos como pessoas.

Quando estamos muito focados em nós mesmos, quando deixamos de acalmar o ego, e ele adquire proporções excessivas, ou simplesmente temos muita pressa para nos impedir de pensar, preferimos julgar. Adicionamos rótulos duplos para catalogar coisas, eventos e pessoas em um espectro limitado de “bom” ou “ruim”, tomando como medida de comparação nossos desejos e expectativas.

Agir como juízes não apenas nos afasta da realidade, mas também nos impede de conhecê-la – e desfrutá-la – em sua riqueza e complexidade, transformando-nos em pessoas hostis – e não muito empáticos. Toda vez que julgamos algo, simplificamos a expressão mínima e fechamos uma porta para o conhecimento. Nós nos tornamos mero animalis iudicantis.
Pensar é um ato enriquecedor.

Na sociedade líquida em que vivemos, é muito mais fácil julgar, criticar rapidamente e passar para o próximo julgamento. O que não ressoa em nosso sistema de crenças nós julgamos como inútil ou estúpido e passamos para o seguinte. Na era da gratificação instantânea, o pensamento exige um esforço que muitos não estão dispostos – ou não querem – a assumir.

O problema é que os juízos são tarefas interpretativas que damos a eventos, coisas ou pessoas. Cada julgamento é um rótulo que usamos para atribuir um valor – profundamente tendencioso – já que é um ato subjetivo baseado em nossos preconceitos, crenças e paradigmas. Julgamos com base em nossas experiências pessoais, o que significa que muitas críticas são um ato mais emocional que racional, a expressão de um desejo ou uma decepção.

Pensar, pelo contrário, exija reflexão e análise. Mais uma dose de empatia com o que foi pensado. É necessário separar o emocional dos fatos, lançar luz sobre a subjetividade adotando uma distância psicológica essencial.

Para Platão, o homem sábio é aquele que é capaz de observar tanto o fenômeno quanto sua essência. Uma pessoa sábia é aquela que não apenas analisa as circunstâncias contingentes, que geralmente são mutáveis, mas é capaz de rasgar o véu da superficialidade para alcançar o mais universal e essencial.

Portanto, o ato de pensar tem um enorme potencial enriquecedor. Através do pensamento, tentamos chegar à essência dos fenômenos e das coisas. Vamos além do percebido, superamos essa primeira impressão para mergulhar nas causas, efeitos e relacionamentos mais profundos. Isso exige uma árdua atividade intelectual através da qual crescemos como pessoas e expandimos nossa visão de mundo.

Pensar significa parar. Fazer silêncio. Prestar atenção. Controle o impulso de julgar precipitadamente. Pesar as possibilidades. Aprofundar nas coisas, com racionalidade e empatia.

O segredo está em “ser curioso, não crítico”, como disse Walt Whitman.

16.5.19

Ex-catador de papelão vende 60 livros por dia na rua


Foto: Odilon Tavares
Ele nunca leu um livro completo, mas folheia várias páginas todos os dias. Conhece diversos escritores e convive diariamente com um arsenal de 4 mil publicações. Vive rodeado de leitores e rejeita as teorias de que a leitura de papel está com os dias contados. “As pessoas querem ler, o problema é o preço do livro”, afirma o livreiro Odilon Tavares, que diariamente monta sua “livraria” no calçadão da rua Grão Mogol, na esquina com a avenida Contorno, na região Centro-Sul de Belo Horizonte.

O ex-catador de papelão instalou-se na região há pouco mais de um ano com o objetivo de ter um negócio próprio e divulgar a cultura. Todos os exemplares têm preço único: R$ 5. No início, vendia de três a cinco unidades por dia. Em pouco tempo esse volume deu saltos e hoje chega a vender diariamente 60 livros para público variado, que vai de crianças a idosos.


Geórgea Choucair

14.5.19

Cuidar dos pais


A minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar, vai ficar eléctrica, vai começar a doer-lhe a perna esquerda.

Cuido dos seus mimos. Gosto de lhe oferecer uma carteira nova e presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de elemento líquido que lhe refresca a idade. Escolho apenas cores claras, vivas. Zango-me com as moças das lojas que discursam acerca do adequado para a idade. Recuso essas convenções que enlutam os mais velhos. A minha mãe, que é a minha filha, fica bem de branco, vermelho, gosto de a ver de amarelo-torrado, um azul de céu ou verde. Algumas lojas conhecem-me. Mostram-me as novidades. Encontro pessoas que sentem uma alegria bonita em me ajudar. Aniversários ou Natal, a Primavera ou só um fim-de-semana fora, servem para que me lembre de trazer um presente. Pais e filhos são perfeitos para presentes. Eu daria todos os melhores presentes à minha mãe.

Rabujo igual aos que amam. Quando amamos, temos urgência em proteger, por isso somos mais do que sinaleiros, apontando, assobiando, mais do que árbitros, fiscalizando para que tudo seja certo, seguro. E rabujamos porque as pessoas amadas erram, têm caprichos, gostam de si com desconfiança, como creio que é normal gostarmos todos de nós mesmos. Aos pais e aos filhos tendemos a amar incondicionalmente mas com medo. Um amigo dizia que entendeu o pânico depois de nascer o seu primeiro filho. Temia pelo azedo do leite, pelas correntes de ar, pelo carreiro das formigas, temia muito que houvesse um órgão interno, discreto, que disfuncionasse e fizesse o seu filho apagar. Quem ama pensa em todos os perigos e desconta o tempo com martelo pesado. Os que amam sem esta factura não amam ainda. Passeiam nos afectos. É outra coisa.

Ficar para tio parece obrigar-nos a uma inversão destes papéis a dada altura. Quase ouço as minhas irmãs dizerem: não casaste, agora tomas conta da mãe e mais destas coisas. Se a luz está paga, a água, refilar porque está tudo caro, há uma porta que fecha mal, estiveram uns homens esquisitos à porta, a senhora da mercearia não deu o troco certo, o cão ladra mais do que devia, era preciso irmos à aldeia ver assuntos e as pessoas. Quem não casa deixa de ter irmãos. Só tem patrões. Viramos uma central de atendimento ao público. Porque nos ligam para saber se está tudo bem, que é o mesmo que perguntar acerca da nossa competência e responsabilizar-nos mais ainda. Como se o amor tivesse agentes. Cupidos que, ao invés de flechas, usam telefones. E, depois, espantam-se: ah, eu pensei que isso já tinha passado, pensei que estava arranjado, naquele dia achei que a doutora já anunciara a cura, eu até fiz uma sopa, no mês passado até fomos de carro ao Porto, jantámos em modo fino e tudo.

Quando passamos a ser pais das nossas mães, tornamo-nos exigentes e cansamo-nos por tudo. Ao contrário de quem é pai de filhas, nós corremos absolutamente contra o tempo, o corpo, os preconceitos, as cores adequadas para a idade. Somos centrais telefónicas aflitas.

Queremos sempre que chegue a Primavera, o Verão, que haja sol e aqueçam os dias, para descermos à marginal a ver as pessoas que também se arrastam por cães pequenos. Só gostamos de quem tem cães pequenos. Odiamos bicharocos grotescos tratados como seres delicados. O nosso Crisóstomo, que é lingrinhas, corre sempre perigo com cães musculados que as pessoas insistem em garantir que não fazem mal a uma mosca. Deitam-nos as patas ao peito e atiram-nos ao chão, as filhas que são mães podem cair e partir os ossos da bacia. Porque temos bacias dentro do corpo. Somos todos estranhos. Passeamos estranhos com os cães na marginal e o que nos aproveita mesmo é o sol. A minha mãe adora sol. Melhora de tudo. Com os seus lenços como coisas líquidas e cristalinas ao pescoço, ela fica lindíssima. E isso compensa. Recompensa.

Comemos o sol. Somos, sem grande segredo, seres que comem o sol. Por isso, entre as angústias, sorrimos.

Valter Hugo Mãe

30.4.19

A arte de ser feliz


Houve um tempo em que minha janela se abria
sobre uma cidade que parecia ser feita de giz.
Perto da janela havia um pequeno jardim quase seco.
Era uma época de estiagem, de terra esfarelada,
e o jardim parecia morto.
Mas todas as manhãs vinha um pobre com um balde,
e, em silêncio, ia atirando com a mão umas gotas de água sobre as plantas.
Não era uma rega: era uma espécie de aspersão ritual, para que o jardim não morresse.
E eu olhava para as plantas, para o homem, para as gotas de água que caíam de seus dedos magros e meu coração ficava completamente feliz.
Às vezes abro a janela e encontro o jasmineiro em flor.
Outras vezes encontro nuvens espessas.
Avisto crianças que vão para a escola.
Pardais que pulam pelo muro.
Gatos que abrem e fecham os olhos, sonhando com pardais.
Borboletas brancas, duas a duas, como refletidas no espelho do ar.
Marimbondos que sempre me parecem personagens de Lope de Vega.
Às vezes, um galo canta.
Às vezes, um avião passa.
Tudo está certo, no seu lugar, cumprindo o seu destino.
E eu me sinto completamente feliz.
Mas, quando falo dessas pequenas felicidades certas,
que estão diante de cada janela, uns dizem que essas coisas não existem,
outros que só existem diante das minhas janelas, e outros,
finalmente, que é preciso aprender a olhar, para poder vê-las assim.

Cecília Meireles

13.4.19

Elegância é algo que a gente carrega, não veste!



Ser elegante vai além de ter bom gosto com roupas e saber se vestir. Elegância é algo que a gente carrega e não veste.

Regras de etiqueta da vida e não do armário para uma vida onde elegância é sinônimo de educação e bom comportamento.

Sabe o que é mesmo elegante? Ter bom senso e respeito.

Não é preciso estar em cima de um salto alto ou dentro de um terno caríssimo para ser elegante. As atitudes enfeiam pessoas que não têm bom comportamento.

A elegância está na simplicidade de um "bom-dia" sincero para o porteiro que passou a noite toda acordado, no falar baixo quando o outro está perto, no saber ouvir quando o outro fala e no saber sorrir quando isso é tudo o que você pode oferecer. No saber agir sem agredir.

Uma pessoa elegante tem encantamento na voz, fala com propriedade e tem jeito com as palavras. Sabe chamar a atenção sem ser rude, sabe observar sem se intrometer, sabe respeitar o espaço alheio.

A elegância está no tom da voz e no silêncio que também comunica. Na forma de se posicionar quando precisa, no jeito de ver o mundo.

Uma pessoa elegante não vive de fofocas, não inventa mentiras e não se mete em baixaria. Quem é elegante tem positividade, atrai pessoas do bem, vibra com a vida, com os sucessos, torce pelo outro, não tem inveja, carrega alegrias e otimismo, e sente com verdade. Não sabe viver de oportunismos, sabe se colocar nas oportunidades e não puxa saco nem tapete.

Elegância está no “com licença” e “muito obrigado”. No reconhecimento do esforço, na empatia e na colaboração. Está na mão que ajuda, está também na gratidão.

E quanto mais conheço pessoas, mais percebo que a elegância está vestida de simplicidade e não de rótulos e invólucros sociais. Encontrei mais elegância calçada de chinelos que vestida de etiquetas. E isso não tem a ver com situação financeira, mas com referência de vida, criação e sabedoria.

Encontrei a elegância no ser e não no ter, e percebi que é mais elegante aqueles que se vestem de amor.

Anieli Talon

Fonte: Revista Pazes

Elegância é a arte de não se fazer notar, aliada ao cuidado sutil de se deixar distinguir.
(Paul Valéry)

30.3.19

E levar seu coração em meus braços


Tentar apanhar seu coração
é como tentar apanhar uma estrela.

(...)

Waiting for a star to fall
Boy meets girl

23.2.19

Sobre o muito que há


Quando nos agarramos muito forte às nossas crenças, 
corremos o risco de ficar cegos para a realidade 
e enxergar apenas o que se encaixa nelas.

Haemin Sunim

18.2.19

Cada dia que sou


Quando estou feliz,
desenho um sorrisão com giz.

Se estou calado,
me deixe na lua dependurado.

Coração por um triz...
Epa! "Menino apaixonado"
escrito bem assim, 
na ponta de uma estrela.

Pedro Antônio de Oliveira

17.2.19

As jabuticabas



Estavam tão maduras que foi impossível resistir. Entrei no quintal vizinho, pulando a cerca. Quase deixei presa parte da minha cabeleira no arame farpado. Diziam que a dona da casa era meio surda, mas não sei não... Logo que percebeu uma movimentação estranha, a senhora apareceu ventando, armada com uma grande vara de bambu, certa de que havia algum aventureiro rondando sua preciosa jabuticabeira. E não demorou para que eu fosse pego com a boca na botija, dependurado em um dos galhos da árvore.

Quanto mais tentava me cutucar com aquele objeto pontiagudo, mais eu subia pela copa da árvore. A ousadia já estava se tornando bastante arriscada. Meu braço ficou um pouco esfolado na perigosa escalada rumo ao tesouro proibido. Consegui encher uma sacola imensa com jabuticabas. E antes que a senhora pudesse botar as mãos em cima de mim, pulei no chão como um felino, e corri com a habilidade de quem já está habituado a situações delicadas. Escapei pelo quintal do outro lado.

Retirei algumas da sacola e embrulhei tudo em papel de pão. Em seguida, fui para a escola. Já tinha merenda garantida para o dia. Apesar de tudo, eu me senti com sorte.

No meio da aula, me bateu uma vontade incontrolável de experimentar só umas, uminhas! Para que esperar o recreio? Eu me sentava no fundo da sala, um ótimo esconderijo para um lanche fora de hora ou qualquer outra travessura de nível médio.

Mas que pena. O papel se rasgou de repente, fazendo rolar pela sala as preciosas e suculentas jabuticabas. Foram chegando, uma a uma, devagarinho, até o quadro, onde a professora ensinava Matemática. Rolaram espertas e cobertas de poeira do assoalho. Uma cena curiosa e engraçada, se não fosse triste. A aula parou e todos assistiram, surpresos, àquele festival de bolas de gude negras e embaçadas de sujeira do chão da escola.

Eu já devia saber que não existe mesmo crime perfeito.

Pedro Antônio de Oliveira

14.2.19

Para acreditar


Não desanime, pequena estrela.
Não se apague na entrada da manhã.
O universo é belo e intenso.
E, sobre nós, brilha uma luz, que não está sozinha. 
São milhões de afetos, 
pequeninos, honestos, 
capazes de superar, todos os dias, a fria imensidão das coisas
que ainda não compreendemos.
Tudo isso porque o amor existe.
Apesar de tudo,
e sobretudo
a ilusão
vive,
para nos salvar.

Pedro Antônio de Oliveira

12.2.19

"Toca o barco"

Foto: Divulgação Band
Quando era mais novo, ouvia muito rádio. Sempre gostei muito das rádios de notícia e ficava alternando entre BandNews e CBN. Naturalmente, como tantos outros, acostumei-me com a voz de Boechat e com sua perspicácia e inteligência. Jamais imaginaria que, anos depois, conversaria com ele ao vivo em algumas ocasiões, como em Janaúba e agora em Brumadinho, poucos dias atrás.

Os últimos acontecimentos têm mostrado que a vida é mesmo fugaz. Vamos e deixamos as contas por pagar, as consultas agendadas sem desmarcar e o vizinho sem resposta sobre a possibilidade de empréstimo da churrasqueira. Que possamos demorar no beijo matinal, que possamos reparar diariamente no detalhe do outro, que o milagre dos encontros não programados possam ser perceptíveis à nossa rotina tão acelerada para que, quando formos, as únicas pendências sejam as tolices burocráticas cotidianas que confundem nosso senso de prioridade.

E que as pessoas possam trabalhar com amor e assim deixar um legado de inspiração bonito como você deixou, grande jornalista. Que mais essa dor em um ano tão difícil seja dividida em tantos corações quanto aqueles que te ouviam para seguirmos em frente.

Meus sentimentos aos familiares e amigos de Ricardo Boechat e do piloto Ronaldo Quatrucci, em especial aos estimados amigos do Grupo Band.

Pedro Aihara
(Tenente do Corpo de Bombeiros de Minas Gerais)

Tomei a liberdade de compartilhar o texto desse jovem e competente porta-voz do Corpo de Bombeiros. Sou um admirador desse grande profissional que, com firmeza e serenidade, vem conduzindo sua bonita missão aqui na Terra. Sem dúvida, é um ser de luz amenizando a dor de tantas famílias. O depoimento acima foi reproduzido de sua conta no Instagram. 


A respeito do jornalista Ricardo Boechat, só tenho a dizer que sua morte representa uma inestimável perda para todos nós que apreciávamos seu trabalho, sempre elegante, inteligente e crítico. A ele e ao piloto, nossas orações. Às famílias e aos amigos, nossas sinceras manifestações de carinho.

Boechat, obrigado por ter cumprido tão bem seu propósito de vida neste planeta. Obrigado por ter denunciado e lutado por dias melhores para todos os brasileiros, dentro de seu campo de atuação. Obrigado por não ter sido omisso e ter nos concedido informação de boa qualidade e um humor refrigerante em tempos de dor, desumanidades e injustiças.

Pedro Antônio de Oliveira

9.2.19

O renascer

Cão salvo da lama em Brumadinho, Minas Gerais, após o rompimento da barragem da Mina do Feijão
Foto: Reprodução portal Jardim Animal

Haverá um dia em que todas as nossas ações estarão alinhadas com a Lei do Amor. Por enquanto, ainda prevalece, para muitos, a Lei do Dinheiro. Talvez, seja por isso que caminhamos atordoados, sem paz.

É como se nossas buscas não nos levassem para um lugar seguro, de felicidade. Achamos que toda alegria, toda realização, todo sucesso só podem ser conquistados de forma material e por meio do dinheiro. Mas, em nossa jornada, aos poucos temos percebido que nem tudo "Vale" a pena em nome dele.

Estamos cansados, repensando nosso modo de viver e de ser. Pode ser o início de uma mudança radical em nossos valores e o começo de um tempo mais humano, em que o amor seja, sim, a mais valiosa moeda.

Pedro Antônio de Oliveira