10.8.20

Desde que o samba é samba

 

A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba, é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite, a chuva que cai lá fora.

Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora.

O samba ainda vai nascer
O samba ainda não chegou
O samba não vai morrer
Veja, o dia ainda não raiou.

O samba é o pai do prazer
O samba é o filho da dor
O grande poder transformador.

Caetano Veloso

1.8.20

Meu ideal seria escrever...


Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “ai, meu Deus, que história mais engraçada!” E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa (que não sai de casa), enlutada (profundamente triste), doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – “mas essa história é mesmo muito engraçada!”.

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada como o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má-vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera, a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário (autoridade policial) do distrito (divisão territorial em que se exerce autoridade administrativa, judicial, fiscal ou policial), depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa (habitante da antiga Pérsia, atual Irã), na Nigéria (país da África), a um australiano, em Dublin (capital da Irlanda), a um japonês, em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou (introduziu-se lentamente em) por acaso até nosso conhecimento; é divina.”

E quando todos me perguntassem – “mas de onde é que você tirou essa história?” – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história...”

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

Rubem Braga

21.7.20

Bicicleta



Lá vai a bicicleta do poeta em direção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.

O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece
uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.

De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.

O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.

Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
O poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.


Herberto Helder de Oliveira


21.6.20

Um poema


Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

Miguel Torga

3.6.20

O grande erro


Eu juro que nunca fui um garoto violento. Pra ser sincero, na escola sempre estive mais para saco de pancadas do que mesmo para um facínora desalmado. Mas, quando vi, já estava dando um soco no nariz daquele menino que não conhecia e de quem nunca senti raiva na vida.

Lembro que ele estava mexendo com as meninas no corredor, antes de começar a aula. Daí, uma delas pediu que eu "desse um jeito" naquele chato. Foi quando o empurrei e deferi o golpe bem no rosto dele, um nocaute. Ele não reagiu. Apenas levou a mão ao nariz, provavelmente sentindo o calor do sangue a escorrer pela face. Jamais me esqueci daquela cena. Eu me senti um covarde, um verdadeiro pusilânime, principalmente porque o menino não revidou.

Aquilo não era uma briga nem era uma disputa. Não houve provocações, a história não era comigo. Pra que fui cometer aquela besteira? Aposto que doeu mais em mim do que nele. As meninas comemoraram meu gesto heroico, como se eu fosse um vencedor. Vencedor? Vencedor de nada! Se eu pudesse, voltaria no tempo. Creio que meninos sejam todos assim, incongruentes, estranhamente cruéis sem necessidade: sempre que encontram alguém mais fraco, tentam dominar, mesmo um sujeito como eu, uma verdadeira mosca morta para assuntos de guerra. Apanhar dói menos, infinitamente menos, concluí.

Devia ter pedido desculpas, dito a ele que tudo foi um engano, uma insanidade, que eu estava arrependido. Ou, quem sabe, oferecer meu nariz para que ele também pudesse dar um socão. Não fiz nada disso. Outra vez fui um fraco; outra vez, um perdedor.

O tempo foi passando e fomos crescendo. Algumas vezes eu o encontrei no ônibus. E ele me olhava com a cara fechada, olhar amedrontador como se dissesse que um dia iria dar o troco. Eu sentia só um dedinho de medo dessa hora chegar. Nunca chegou.

Anos mais tarde, eu já seria adulto. Uma garota grávida, que conheci menina dos corredores do colégio, pregaria seus olhos em mim, descuidadamente. A seu lado, um rapaz, um velho conhecido meu. Ele me olharia profundamente, segurando um cachorrinho felpudo em plena manhã luminosa. Dizem que pra gente sempre se lembrar de alguém, mesmo que os anos se passem, basta fixar a atenção nos olhos. O olhar permanece igual. Tive a certeza disso. Era minha vítima, a do soco. Eu, o agressor, teria uma segunda chance: pedir desculpas.

Meu coração bateria acelerado e eu me apresentaria. E ele se lembraria. E sorriria impressionado por eu ainda me recordar daquele dia, daquela cena. E ele aceitaria meu pedido de perdão e trocaríamos um aperto de mãos. E ficaríamos amigos. Uma amizade adiada em muitos anos.

Ele parecia um cara bem divertido. Leve, talvez não quisesse revolver a poeira do tempo. O garoto, agora um rapaz, em paz, sorriu para minha mãe no momento em que ela passou perto dele e brincou com seu cãozinho. Ele foi gentil, devolveu o afago em seu pet com uma cara boa, a melhor cara do mundo. Eu permaneci vacilante, sem saber se puxava conversa com ele, se perguntava sobre aquele fato do passado. E a chance de novo se foi.

Esta é uma história real que ainda espera por um final, de preferência feliz. Se eu esbarrar outra vez com minha vítima, não vou deixar escapar de novo a oportunidade de reparar meu grande erro. E aí, eu conto aqui pra você. Prometo.

Pedro Antônio de Oliveira

24.5.20

Cadê você mesmo?


Seus olhos não eram assim os de uma vilã. E sua voz meio adocicada fazia cócegas nos meus ouvidos. Tão gostoso que me dava vontade de ouvir tudo o que ela queria me dizer. Não importa quanto tempo isso levasse. Pena que alguns vazios não se curam com música.

Não conseguia sentir raiva dela. Só um pouquinho de assombro. Ela me apareceu num dia triste. Acho um absurdo os dias tristes se parecerem com dias de verão, de céu azul e sol luzindo. Dias tristes deveriam ter, no mínimo, temporal com raios, vento gelado e pessoas metidas em suas casas.

Saudade era uma menina. O nome dela não era Verônica, nem Catarina nem Carolina. Era Saudade.

– Se você achar estranho, pode me chamar de Aluana – ela sugeriu.

– Aluana?

– Hum-hum. É uma mistura de A Lua + Ana. Sempre achei bonito.

Eu disse para Saudade ou Aluana que ela era cruel, esbanjando aquele sorriso todo num dia em que eu não estava bem. Ou era deboche? Mas falei isso sem mágoa porque ela possuía um frescor que ia muito além do balanço que tinha nos cabelos.

– Eu não sou malvada. Veja! Eu pareço um monstro?

O pior é que não parecia mesmo. Linda, nem ruiva nem morena, apenas uma menina.

– Garoto, deixa de ser bobo. Vou te mostrar uma coisa que você vai amar.

– Garoto? Eu já sou um adulto. Não sou mais menino.

– Você está enganado.

– Não, não estou não. Olhe pra mim.

– Estou olhando, ora!

– Então, não vê que já sou velho, que já vivi uma porção de histórias tristes?

Aluana tirou de sua bolsinha prateada um espelho, que ficou gigante de repente.

– Observe você mesmo. É assim que você é.

Minha surpresa foi tão grande que só faltei desmaiar.

– Me diga com o que se parece? Com um vovô gagá?

Incrível, minha aparência era a de um garotinho. Um menino de sete, oito anos...

– Mas eu não sou essa criança aí.

– Pare com isso. Não sou eu quem está dizendo. É você quem se vê agora neste espelho – advertiu Aluana.

– Tem razão. Eu virei um menino – concordei.

– Errado. Você sempre foi esse menino.

Pedro Antônio de Oliveira

21.4.20

Instituto Educacional Missão Paz promove encontro literário virtual sensacional!


Os estudantes do quarto ano do Instituto Educacional Missão Paz leram meu livro "Oreosvaldo, o Pássaro das Sombras" (Editora Lê) e participaram de um bate-papo eletrizante via internet no dia 15 de abril. Pena que não foi possível ir até a escola, conversar pessoalmente com a galerinha e abraçar todo mundo, como geralmente tenho o prazer de fazer. O momento agora é de se proteger contra a Covid-19 e manter o isolamento social. A professora Renata Moura foi quem comandou os trabalhos literários.

A garotada foi incrivelmente demais nas perguntas, no carinho e na interação! Permanecemos juntos por mais de uma hora, compartilhando ideias e nos divertindo muito.

Obrigado ao Instituto Educacional Missão Paz pela oportunidade! Fiquei muito feliz ao saber que os alunos gostaram das aventuras do nosso poeta e blogueiro misterioso, o Pássaro das Sombras! ♥

Quer saber mais? Clique aqui e leia.


Pedro Antônio de Oliveira

16.4.20

Penso nisso amanhã


Um dom
Não me negar a ser feliz
Aprendi
Posso ser rico sem tostão
Quero é muita história pra poder contar
Da vida nunca fugi
Mas se ela fica complicada
Penso nisso amanhã
É bom poder ser dono do nariz
Aprendi
Mas vou ser sempre um aprendiz
Numa foto não dá pra guardar
O que você é pra mim
Nosso caso quero viver agora
Não deixo pra amanhã
Oh, oh, oh...
Não deixo pra manhã.

Paulinho Lima / Nico Rezende

2.4.20

Pedido


Se notar que eu estou crescendo, me volte logo no tempo, ó, Senhor de Todos os Mistérios. 
Quando começar a me cansar de tudo, vou precisar ver a vida como na primeira vez.

Pedro Antônio de Oliveira

Este vídeo lindo foi feito por minha amiga Angelica.
Siga no Instagram e no Facebook: @cafemeexpresso

(Este pensamento foi publicado neste blog em 12/9/2009. Clique e relembre. E, segundo a Angelica, desde a primeira vez que ela o leu, essas palavras nunca saíram da cabeça e do coração dela. 
Obrigado, querida Angel!)

27.3.20

Aquele mundo mais bonito


Gira, rosa dos ventos.
Quem sabe voa vindo da janela
um daqueles dias perdidos.

Hoje deu saudade de uns abraços
e de ver sem medo aquela nuvem branca em formato de girafa
dos céus azuis das minhas infâncias.

O que é mesmo a vida
com todo aquele amontoado de coisas que carregamos apressados
pelo tempo afora,
se agora
quase nada serve para preencher uma imensidão?

Pedro Antônio de Oliveira

Quase sem querer


Tenho andado distraído
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente
Sou tão tranquilo e tão contente.

(...)

Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos
Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto.

Eduardo Dutra Villa Lobos / Marcelo Augusto Bonfá / Renato Manfredini Júnior / 
Renato da Silva Rocha

14.3.20

Paragens e velhos mistérios


Sol, solidão, cachorro, alegria, macarrão, vento, amigos, distância, bicicleta, noite, estrelas, música, espinha, sonho, chão, céu, mãe, pai, perfume, margarina, infância, sorte, Deus, ilusão, tristeza, velocidade, leitura, acaso, proteção, dor, escuro, tempo, inocência, benevolência, segredo, chocolate, mistério, borboleta, horizonte, saudade, arco-íris, férias, descanso, passado, mar, ônibus, bola de sabão, reencontro, beleza, ventilador, chiclete, lágrima, alívio, sorriso, sábado, clube, computador, maçã, calor, alô, amor, medo, abraço, árvore, paixão. 

É a vida.
Pedro Antônio de Oliveira

12.3.20

Escuridão?


Era uma daquelas tardes quentes e abafadas de março. Saí da escola louco para tomar o ônibus e chegar logo em casa. Já me preparava para atravessar uma avenida quando vi um casal de cegos. Tive dúvida: será que me ofereço para ajudá-los? A esquina era perigosa. Passavam veículos em alta velocidade. Resolvi me aproximar, porque senti um certo desconforto ao vê-los parados ali, na minha frente.

“Ei, vocês querem uma ajudinha?” O rapaz disse “sim”. A menina segurava seu braço. Formamos um trio simpático em plena tarde calorenta. “Mas eu acho que devemos esperar um pouco, porque o sinal está aberto para os veículos”, falei procurando ser divertido e familiar. O moço concordou com um “tudo bem” descolado e continuou o papo com a garota. Achei melhor assim. Daí, me senti mais à vontade. Isso durou só um segundinho, porque, no momento seguinte, pensei que pudesse estar atrapalhando o papo dos dois, sendo, digamos, um pouco intruso.

Esperei o sinal ficar verde para pedestres. Uma pequena dose de cautela não faria mal algum. Que graça tem virar boliche humano? E, depois, parecia que os dois não estavam assim, com tanta pressa.

Ao fim de uma pequena eternidade, o sinal fechou para os carros e começamos a travessia. O rapaz me segurou pelo braço. Parece ser essa uma boa tática dos deficientes visuais, porque você acaba indo à frente, e eles não se sentem presos, tendo alguém como referência para seguir o caminho.

Terminamos as duas faixas de avenida, e ele se despediu da moça, que disse que seguiria por outra rua. Não perguntei seu nome. Pensei ser intimidade demais. Ele quis saber onde eu estudava, e eu expliquei. O rapaz não fez comentários. Espero não ter soltado besteiras do tipo: “ah, minha aula é ali, naquele prédio azul do banco tal...”. Subimos conversando sobre os buracos na calçada. E ele concordou, contando que havia trechos ainda piores em outros pontos da cidade.

Eu, cheio de cuidados, e ele parecendo mais firme nos passos que eu. Falei que seguiria até mais à frente. E ele, que ficaria na próxima quadra. Caminhamos um bom tempo em profundo silêncio. Logo chegamos à tal esquina. E qual não foi meu espanto? Não precisei falar que havíamos chegado. Simplesmente, ele sabia. Então ele me agradeceu, largou meu braço e se virou, descendo a rua. “Vai com Deus”, me despedi.

Fiquei intrigado. Prossegui em direção ao ponto de ônibus, imaginando mil coisas. Talvez ele contasse os passos ou aguçasse a audição. Eu me lembrei do caso de uma senhora. Apesar de não enxergar, ela passava roupas com habilidade, sem se queimar ou estragar o tecido, segundo minha mãe.

Desatento, tropecei num paralelepípedo saliente e quase meti os joelhos no chão.

Pedro Antônio de Oliveira

29.2.20

Por onde for


A graça se revela em harmonia
Alvorecendo a beleza em cores
Quero levar você em todo dia
A vida inteira na estação das flores.

Descanso o teu olhar no meu sem dizer adeus
Que o tempo põe a mesa pra nós dois...

Lorena Chaves

24.2.20

Uma história real sobre anjo


Descobri que tenho um anjo da guarda. Nas horas de aperto, dizem que é só chamar por ele.

Uma vez, na saída de um shopping, dois zonzos, meu primo e eu chamamos a atenção de meio planeta; ai que vergonha! Quase fomos atropelados. Sorte que eu o puxei pela camisa. O som da freada do carro foi horrível! Até hoje ecoa em meus ouvidos. Depois daquela façanha, com um pouquinho mais de treino, poderíamos facilmente seguir a profissão de dublê. Mas fiquei pensando... será que foi o anjo? Será que foi ele quem soprou no meu ouvido: “segura aí esse distraído ou ele vai quebrar umas costelas!”?

Quantas vezes, bem na hora de sair de casa, perdi minha carteira ou as chaves e, por isso, ficava um tempão procurando os objetos desaparecidos. Será que era o anjo me atrasando para evitar algum acidente ou assalto? Anjo faz isso? Bagunça a vida da gente pra nos livrar de apuros? Ou são simplesmente minhas trapalhadas? Dizem que se a gente não ligar pra ele, o coitado do anjo fica sem graça, se sente esquecido, pensando que não é importante e, daí, acaba dando no pé.

Um dia, quando ia pra escola, aconteceu algo também bastante esquisito, desta vez, esquisitíssimo. Era uma manhã dessas normais, após uma noite de muita chuva, em que os semáforos, alucinados, ignoravam a pressa dos carros e dos pedestres.

Quando percebi que o sinal de trânsito não estava funcionando direito, fiquei nervoso. Foi como se as lembranças do quase-atropelamento em frente ao shopping brotassem de novo na minha cabeça.

Depois de algum tempo, consegui atravessar uma das faixas e fiquei no canteiro central, esperando uma oportunidade pra me livrar daquela fria. O vento dos automóveis e o barulho dos motores me davam arrepios.

Alguns malucos aventureiros se arriscavam, tirando lasquinhas nos veículos, e os veículos tirando lasquinhas neles. Meu coração pulsava de medo, querendo fugir pela boca. Ao meu lado, um desconhecido puxou conversa e alertou: “Cuidado, garoto, não atravesse agora!”. Olhei pra ele e pensei: “quem é esse sujeito, meu Deus?”. Ele continuou: “Espere só um pouquinho. Logo a gente consegue atravessar com segurança. Eu morro de medo. Você não?”. Nem respondi, porque fiquei surpreso com aquele estranho falando comigo.

Bem, e foi assim que, após alguns segundos, cruzamos a via juntos. Fomos em silêncio pela calçada. Àquela altura do campeonato, já havia me acalmado. Até me esqueci do medo e troquei duas ou três palavras com o tal cara. Meu ônibus surgiu e me apressei pra não perdê-lo. Antes, resolvi me despedir do rapaz que atravessou comigo a avenida; afinal, ele tinha sido simpático.

O ponto estava lotado e não consegui mais avistá-lo. Entrei no lotação, passei pela roleta com o olhar fixo na multidão lá fora. O homem tinha desaparecido. Mas, como? Pra onde? Não havia outro ônibus no qual ele pudesse ter se metido. Não havia outra rua pela qual ele pudesse ter seguido.

O coletivo arrancou devagarinho e meu pensamento de novo se perdeu de espanto. Será que era ele, meu anjo da guarda dando sopa? De novo?

Pedro Antônio de Oliveira

Curiosidade: Dizem que meu anjo da guarda se chama Haiaiel. É fácil descobrir. Existem muitos sites por aí que revelam quem é seu anjo da guarda, bastando informar a data de nascimento. O anjo Haiaiel confunde o mal e ajuda todos que querem se livrar de pessoas que praticam a maldade. Incentiva a ter garra e perseverança na luta em favor da paz e para alcançar os objetivos na vida. O influenciado por esse anjo será livre de perversidade ou negatividade. Ele trabalha para Deus com inteligência e coragem para superar a opressão e a servidão. Terá a proteção divina para tomar a decisão certa. Libertará os fracos e oprimidos superando as adversidades. Protege e leva à vitória, com braveza e coragem.

21.2.20

À sombra de um jatobá


Raios de sol na varanda
Verde cobrindo o jardim
Poder sentir a vida espreguiçar.

Com o cheiro da madrugada
Dama-da-noite, jasmim
Olhar no céu estrelas pra contar.

Ter meus amigos comigo
Quem amo me amando, sim
Longe do amor de quem nos finge amar.

Ver na manhã de um domingo
Meu filho sorrir pra mim
Depois dormir à sombra de um jatobá.

Poucas coisas valem a pena
O importante é ter prazer
Longe de mim a inveja e a maldade escondidas na vida
Hoje estamos nós em cena e não há tempo a perder
Pois tudo acaba mesmo sempre em despedida.

Toquinho

16.2.20

Telhados de Paris


Venta, ali se vê
Aonde o arvoredo inventa um balé
Enquanto invento aqui pra mim
Um silêncio sem fim
Deixando a rima assim
Sem mágoas, sem nada
Só uma janela em cruz
E uma paisagem tão comum
Telhados de Paris
Em casas velhas, mudas
Em blocos que o engano fez aqui
Mas tem no outono uma luz
Que acaricia essa dureza cor de giz
Que mora ao lado, mas parece outro país
Que me estranha, mas não sabe se é feliz
E não entende quando eu grito
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
O tempo se foi
Há tempos que eu já desisti
Dos planos daquele assalto
De versos retos, corretos
E o resto de paixão, reguei
Vai servir pra nós
E o doce da loucura é teu, é meu
Pra usar a sós
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
Venta...
Venta...
Venta...

Zélia Duncan

10.2.20

Só você vai entender


Eu gosto de coisas galácticas. 
De estrelas, cometas, planetas e luas. 
Amo também naves imperiais que me levam de futuro a futuro. 
E por lá, não há motivos para temer.
Até nem me lembro direito das coisas tristes que já vi pela TV. 
Eu converso em várias línguas com gente de canto a canto do infinito. 
Ah... viajar é tão bonito. 

Pedro Antônio de Oliveira

Uma abraço de coragem


E dizem que um anjo trazendo um sol nas palavras ergueu o menino.
Foi numa manhã de domingo, aparentemente comum.
Com seus poderes de anjo, falou entre um sonho e outro, no restinho de sono, coisas tão bonitas que pareciam água matando a sede. O menino achava que já tinha perdido toda aquela ilusão que o acompanhara desde os primeiros passos. O menino achava que já tinha perdido. Mas ele se esqueceu do anjo que nascera antes dele e que, lá das altas nuvens, tinha feito uma promessa: jamais abandonar seu protegido. O anjo, antes de mais nada, era seu melhor amigo.

Pedro Antônio de Oliveira

1.2.20

O crime não compensa



Nunca suportei ver alguém ao meu lado mendigando cola. Esse meu coração de manteiga de garrafa ainda iria me botar em maus lençóis, era só questão de tempo. Bastava começar a prova e eu podia dar adeus ao sossego. A todo momento, chegavam papeizinhos e cochichos suplicando as respostas das questões. Todos com cara de cachorro que caiu da mudança e esfolou o focinho. Alguns, mais desesperados, só faltavam derramar lágrimas.

E foi assim que um belo dia a professora de Português descobriu que minha prova e a de uma protegida, leia-se: “coleguinha sanguessuga”, estavam identicamente iguais. Oh, céus! Que coincidência! Fiz cena de espanto misturada à de pobre coitado, vítima em último grau daqueles aproveitadores, embora estivesse tremendo de verdade.

A enfurecida mestra nos deu um minuto e meio para uma exibição de nossas técnicas de telepatia. Só assim, para eu me livrar da acusação de cola, já que nossas provas estavam perfeitamente cara de uma, focinho da outra, até na posição das vírgulas.

Eu poderia ter dito que éramos irmãos, digamos, quase siameses, e que por isso fazíamos tudo quase sempre igual, de tanta afinidade e frequência positiva de energias, mas não ia colar.

Fiquei triste porque todo o meu passado de glórias escorria pelo ralo. O que adiantou tanto esforço nos saraus de poesia, na peça de teatro e nas apresentações de trabalho, se havia me tornado oficialmente, em poucos minutos, um criminoso comum, um legítimo colador.

Ela ameaçou:

_ Então, por enquanto, os dois estão com zero. Se não aparecer o culpado, os dois fazem de novo a prova, OK?

OK nada. Estava num mato sem cachorro. Não tinha coragem de entregar a M. (prefiro assim, não citar o nome dela). Afinal, ela era minha amiga. E, no fundo, no fundo, eu também era culpado, porque poderia simplesmente ter me negado a passar a cola. Por estar sempre tão disposto a ajudar todo mundo é que acabei mantendo essa rotina criminosa em sala de aula. Por milésimos de segundo, fiquei com um pouco de raiva dela por ter me colocado naquela fria. Eu não precisava passar por aquilo.

_ E aí? Vão permanecer calados?

Meu coração disparou. Não estava acostumado a ouvir a professora falando naquele tom. Arrisquei e quebrei o silêncio:

_ Professora, eu não colei de ninguém, disse pausadamente, em tom forte, mistura de medo e raiva.

Minha colega, pivô de todo aquele tribunal de justiça, cavou minha liberdade:

_ Fui eu, professora. Eu errei. Pode me aplicar de novo a prova.

Ufa! Respirei aliviado. Que ironia! Uma cola me fez aprender a lição.

Pedro Antônio de Oliveira

29.1.20

O cinza das rosas


Cuidei delas com carinho. Toda tarde, namorava os botões dourados de fim do dia, à espera de uma explosão de pétalas e cores. O vento sacudia o caule e eu morria de medo de que elas se desmanchassem de repente. Podei muitas vezes seus excessos. Molhei a terra seca em meados de agosto, tempo em que a chuva se esquece da gente, deixando tudo nublado de poeira.

Mas foram aqueles meninos, os piores vilões da rua, sórdidos e invencíveis, que puseram fim ao meu poema maior. A rechonchuda invadiu o jardim num chute certeiro, num arremesso feroz, atingindo em cheio minhas bailarinas.

Tudo aconteceu bem diante dos meus olhos. As flores, amassadas, agonizaram no chão. E, por cima, lá estava ela, aquela assassina horrorosa. Nem foi preciso chamar os agressores. Três caras lavadas apontaram nas frestas do muro. Um deles perguntou se uma bola havia caído por ali.

Apenas abri o portão e os deixei entrar. Sem dizer uma só palavra, apontei o estrago, cobrando, com o silêncio e o choro contido, explicações para tanta maldade. Eu estava tão triste que os garotos notaram meu jeito.

O mais jovem retirou a bola de cima das roseiras amarrotadas. Sobrou apenas um botão. A bola não se machucou. Os espinhos não se defenderam, pois ainda não tinham aprendido a guerrear.

Os meninos foram embora sem dizer nada. Nunca me esqueci daquele dia em que minha paz foi ameaçada.

Pedro Antônio de Oliveira

26.1.20

Para a vida toda


Eu tenho uma amiga que garante que sou para ela uma espécie de mago-professor. Não me lembro direito de uma porção de coisas que ela me conta, mas deve ser tudo verdade. Afinal, ela tem uma memória de elefante nerd: guarda as datas de aniversário de todo mundo e decorou dezenas de letras em inglês de seus cantores favoritos. Pra mim, isso é uma proeza.

Uma de suas mais valiosas lembranças é que eu teria ensinado a ela a amarrar o cadarço do tênis. Aquele lacinho passando engenhosamente um dentro do outro, formando uma borboletinha. Algo sublime, ela garante, porque sempre sonhou em amarrar o calçado sem a ajuda dos outros, e nunca conseguia. Ora veja, que bobagem sem fim (pra mim). Pra ela, não! Porque ela, logo que venceu esse desafio, sentiu-se mais livre do que se tivesse experimentado um voo de paraglider sobre o Atlântico. Mais que isso, parecia ter se tornado a própria asa delta sobre o mar.

Segundo essa minha amiga, também a teria ensinado a andar de bicicleta, a jogar damas, videogame... e mais uma porção de coisas simples e incríveis. E a primeira vez que foi ao teatro, a um show de patinação no gelo, trem fantasma e ao circo, adivinhe quem a convidou?

Pois bem, essas primeiras vezes também guardam algo de recíproco. O meu primeiro engasgo quase mortífero com pipocas foi ao lado dessa amiga. Imagine nós dois debaixo da mesa da cozinha, numa folia maluca, quando uma sapeca pipoquinha travou meu fôlego, querendo acabar com a festa.

Quase caminhei por aquele túnel branco resplandecente, com uma luz na ponta, o qual todo mundo assegura que vê quando se está à beira do além. Eu pulei feito uma legítima pipoca de panela. Fui ficando roxo, roxo... e me arrastei até o filtro, implorando por água e ar. E minha amiga, gente, delirando de rir. Ela nem esticou o braço para me salvar.

Depois que o pânico da morte passou, ela só conseguia enxugar as lágrimas da convulsão de risos. Eu devia ter riscado seu nome da minha lista de amigos com uma caneta esferográfica vermelha, mas ela é tão especial, tão amiga que...

Pedro Antônio de Oliveira

16.1.20

Saudade


Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.

Mia Couto