19.10.21

Colégio Santo Agostinho promove bate-papo sobre o livro Oreosvaldo, o Pássaro das Sombras

 




No dia 19 de outubro, eu me encontrei com os estudantes da manhã e da tarde do Colégio Santo Agostinho, de Belo Horizonte (MG). As turmas também contaram com a presença virtual do ilustrador Maurizio Manzo em uma conversa deliciosa. Havia alunos em casa e outros na escola.

A garotada fez perguntas e matou a curiosidade sobre o processo de criação do livro Oreosvaldo, o Pássaro das Sombras, da Editora Lê! Maurizio e eu revelamos todos os segredinhos que envolvem os bastidores da aventura do poeta e blogueiro misterioso mais amado da internet.

Pena que passou rápido!

Muito obrigado à direção, à supervisão pedagógica, ao setor de biblioteca, à informática (que deu uma forcinha!), aos professores e aos alunos do Colégio Santo Agostinho! Um abração!

Depois dê uma passadinha lá no site do Pássaro das Sombras: www.opassarodassombras.com.br.

Pedro Antônio de Oliveira

23.9.21

Pássaro das Sombras no Colégio Dona Clara






No fim de agosto, tive um encontro virtual sensacional com estudantes e educadores do Colégio Dona Clara, de Belo Horizonte (MG).

O bate-papo aconteceu em duas etapas: com a meninada do 3º ano do período da manhã e, depois, com o 3º ano da tarde.

Os alunos fizeram muitas perguntas sobre a obra Oreosvaldo, o Pássaro das Sombras, da Editora Lê, recentemente adotada pela escola. Entre as dúvidas, a turminha quis saber como surgiram todos aqueles personagens divertidos da história.

Fiquei encantado com as belas ilustrações produzidas pela garotada, todas elas inspiradas na arte do ilustrador Maurizio Manzo que deu vida ao texto do livro. Eles também criaram lindos fantoches da bicharada da trama.

Sem dúvida, uma galerinha atenta, inteligente, educada e participativa! Parabéns a todos(as) pela interação! E um "muito obrigado" às queridas professoras que realizaram esse trabalho literário e pedagógico impecável. 

À direção do Colégio Dona Clara, mais uma vez, minha gratidão. Um abraço especial para a coordenadora Carolina Chagas Fontana.


Pedro Antônio de Oliveira

*Se você estiver acessando os posts de um smartphone, vá até o fim da página e escolha a opção "Visualizar versão para a web" para conseguir ver as imagens e os vídeos.

18.6.21

Poesia


Poesia é a vida
que cruzamos com ânsia,
esperando o que leva
sem rumo a nossa barca.

Frederico García Lorca

5.6.21

Mistério do planeta


Vou mostrando como sou
E vou sendo como posso
Jogando meu corpo no mundo
Andando por todos os cantos
E pela lei natural dos encontros
Eu deixo e recebo um tanto
E passo aos olhos nus
Ou vestidos de lunetas
Passado, presente
Participo sendo o mistério do planeta.

Antonio Pires / Luis Galvão

22.5.21

Exercícios de crescer

 

Mesmo com tanta ilusão perdida
quebrada,
mesmo com tanto caco de sonho
até hoje
a gente se corta.

Alex Polari

5.5.21

Minuano


Este vento faz pensar no campo, meus amigos,
Este vento vem de longe, vem do pampa e do céu.

(...)

Minha infância tem a voz do vento virgem:
Ele ventava sobre o rancho onde morei.

(...)

Eu sou o irmão das solidões sem sentido...
Upa upa sobre o pampa e sobre o mar...

Augusto Meyer

13.4.21

Pela janela aberta


Por que será
Que estou sempre dando festas
Pra você dentro de mim?

É sempre assim
Eu enfeito a minha casa com as flores
Que roubei do seu jardim.

(...)

Belô Velloso

28.3.21

Previsão do tempo


Pipas no céu
Crianças nas nuvens.

Miró

Tédio


Adoro esse olhar blasé
Que não só
Já viu quase tudo
Mas acha tudo tão déjà vu 
mesmo antes de ver.

Antonio Cícero

Sonhar


Sonhar é ter um grande ideal na inglória lida:
Tão grande que não cabe inteiro nesta vida,
Tão puro que não vive em plagas deste mundo.

Helena Kolody

Juntos


Daquele que amo
quero o nome, a fome
e a memória. Quero
o agora. O dentro e o fora,
o passado e o futuro.
Quero tudo: o que falta
e o que sobra
o óbvio e o absurdo.

Maria Esther Maciel

17.3.21

Canción con todos


Todas as vozes, todas
Todas as mãos, todas
Todo o sangue pode
Ser canção no vento.

Canta comigo, canta
Irmão americano
Liberte tua esperança
Com um grito na voz.

Armando Tejada Gómez

5.3.21

Esperando aviões

Durante esta pandemia, comecei a rastrear os aviões no céu. Toda tarde, caminhando entre os muros da minha casa, me habituei a seguir aqueles pássaros de ferro por meio de um aplicativo. Então descubro de onde vêm e para onde estão indo. Se vão viajar para muito longe, se trazem alguém de volta pra casa. 

Fico imaginando as pessoas lá dentro com suas histórias, seus sonhos, suas tempestades e alegrias. Fico querendo também ganhar a liberdade, abrir as asas, deixar as preocupações de lado, encontrar meus amigos, abraçar de novo, sorrir, sentir o vento atrapalhar meus cabelos, o sol dourar meu rosto e aquecer minha esperança. 

Tão bonita a vida, tão preciosos os encontros, tão necessário o afeto. Quando foi que começamos a nos perder? Se seguirmos a fumacinha branca daquele avião, encontraremos de novo o paraíso do qual um dia fomos expulsos?

Em tempo: Hoje minha cidade decidiu fechar todo o comércio não essencial outra vez. Agora o perigo do tal vírus ameaça as crianças. Há várias internadas e outras na fila de espera. Estou me sentindo triste.

Pedro Antônio de Oliveira


Busca verdadeira

Esqueçam tudo o que aprenderam.
Comecem por sonhar.

Frase de um cartaz colado nos muros de Paris em maio de 1968

Efemeridade

 

Da estátua de areia
nada restará
depois da maré cheia.

Helena Kolody

21.1.21

Amor nosso


Quando fazemos tudo para que nos amem e não conseguimos, resta-nos um último recurso: não fazer mais nada. Por isso, digo, quando não obtivermos o amor, o afeto ou a ternura que havíamos solicitado, melhor será desistirmos e procurar mais adiante os sentimentos que nos negaram. Não fazer esforços inúteis, pois o amor nasce, ou não, espontaneamente, mas nunca por força de imposição. 

Às vezes, é inútil esforçar-se demais, nada se consegue; outras vezes, nada damos e o amor se rende aos nossos pés. Os sentimentos são sempre uma surpresa. Nunca foram uma caridade mendigada, uma compaixão ou um favor concedido. 

Quase sempre amamos a quem nos ama mal, e desprezamos quem melhor nos quer. Assim, repito, quando tivermos feito tudo para conseguir um amor, e falhado, resta-nos um só caminho... o de mais nada fazer.

Clarice Lispector

12.1.21

O jangadeiro


Jangadas amarelas, azuis, brancas,
logo invadem o verde mar bravio,
o mesmo que Iracema, em arrepio,
sentiu banhar de sonho as suas ancas.
Que importa a lenda, ao longe, na história,
se elas cruzam, ligeiras, nesse instante,
o horizonte esticado da memória,
tornando o que se vê mito incessante?
As velas vão e voltam, incontidas,
sobre as ondas (do tempo). O jangadeiro
repete antigos gestos de outras vidas
feitas de sal e sonho verdadeiro.
Qual Ulisses, buscando, repentino,
a sua ilha, o seu rosto e o seu destino.

Adriano Espínola

1.1.21

Evocação mariana


A igreja era grande e pobre. Os altares, humildes.
Havia poucas flores. Eram flores de horta.
Sob a luz fraca, na sombra esculpida
(quais as imagens e quais os fiéis?)
ficávamos.

Carlos Drummond de Andrade

24.12.20

Feliz Natal!


Entre tantas mensagens lindas que recebi hoje de meus amigos, uma me tocou mais profundamente. E por isso resolvi postá-la aqui. Foi enviada pela Lindalva, uma querida colega com quem trabalhei durante muitos anos.  

Não importa sua crença. Este tempo tem sido de transformações pra todo mundo. Talvez você não tenha parado para pensar nisso. Mas todos esses acontecimentos, com certeza, possuem um significado enorme. O que será que precisamos aprender? Quem está nos ensinando? Será que deixamos nossa espiritualidade de lado em meio a tantos afazeres? E o invisível? Será ele nos chamando para uma reflexão?

Estamos nesta vida para algo maior. Vamos levar a sério nossa lição e nossa missão.

O melhor presente deste Natal não está à venda nas lojas. Longe ou perto, o importante é que estejamos juntos, que a presença seja sentida, que as energias do amor e da esperança sejam mais fortes que a ausência física.

Eu já fiz minha lista de desejos: vida, saúde, abraços, família, amigos, encontros, sorrisos e liberdade! Bem, esses são apenas alguns! Vamos sonhar com o melhor e alcançar!

Um feliz e abençoado Natal pra você e pra todos que são importantes na sua vida! Obrigado pelo carinho de sua presença na Torre Mágica! Venha sempre! A sua companhia é riso para o meu coração. E riso é luz!

Pedro Antônio de Oliveira

17.12.20

Nadador


O que me encanta é a linha alada
das tuas espáduas, e a curva
que descreves, pássaro da água!

É a tua fina, ágil cintura,
e esse adeus da tua garganta
para cemitérios de espuma!

É a despedida, que me encanta,
quando te desprendes ao vento,
fiel à queda, rápida e branda.

E apenas por estar prevendo,
longe, na eternidade da água,
sobreviver teu movimento...

Cecília Meireles

10.12.20

Poema do beco

Beco do Batman, em São Paulo


Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?

- O que eu vejo é o beco.

Manuel Bandeira

Conhece o Beco do Batman? Não? Clique aqui, então.

Escapulário


No Pão de Açúcar
de cada dia
dai-nos Senhor
a poesia 
de cada dia.

Oswald de Andrade

8.12.20

Bicho encantado


Este bicho é encantado: 
não tem barriga, 
não tem tripas, 
não tem bofes, 
não é maribondo, 
não é mangangá, 
não é caranguejeira. 
Que é que é, Janjão? 
É a Estrela-do-mar que quer me levar.

Jorge de Lima

Repenso o mundo



Repenso o mundo, segunda edição, 
segunda edição corrigida, 
aos idiotas o riso, 
aos tristes o pranto, 
aos carecas o pente, 
aos cães botas.

Wisława Szymborska

19.11.20

Invisivelmente, amor


Sei bem me camuflar
E assim ficar bem perto
Enquanto você agita o mar
E eu caminho pelo deserto.

Essa dor elegante
Que plantou dentro de mim
É um descontrolado gigante
Pisando no meu jardim.

Pedro Antônio de Oliveira

12.11.20

Todas as manhãs

Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Todas as manhãs acoito sonhos
e acalento entre a unha e a carne
uma agudíssima dor.

Todas as manhãs tenho os punhos
sangrando e dormentes
tal é a minha lida
cavando, cavando torrões de terra,
até lá, onde os homens enterram
a esperança roubada de outros homens.

Todas as manhãs junto ao nascente dia
ouço a minha voz-banzo,
âncora dos navios de nossa memória.
E acredito, acredito sim
que os nossos sonhos protegidos
pelos lençóis da noite
ao se abrirem um a um
no varal de um novo tempo
escorrem as nossas lágrimas
fertilizando toda a terra
onde negras sementes resistem
reamanhecendo esperanças em nós.

Conceição Evaristo

2.11.20

Sem barreiras para a leitura e a imaginação


Com todo mundo sem poder sair de casa, a bibliotecária Arlete de Menezes Leal criou o canal Biblioteca sem muros. O projeto começou durante esta pandemia como forma de aproximar os leitores do mundo das histórias. De forma leve, descontraída e muito inteligente, Arlete deixa o internauta louquinho para passear de novo entre estantes físicas repletas de livros e escolher uma aventura para ser sua companhia. Pode ser também um romance, uma obra de suspense ou de poesia. 
Tem dicas para todos os gostos! 

E um dos vídeos foi dedicado ao livro "Oreosvaldo, o Pássaro das Sombras" (Editora Lê), de minha autoria. Eu adorei! Clique aí, na imagem acima, para assistir, e conheça um pouquinho sobre a obra.

Acesse o canal no YouTube e fique por dentro de muitas outras resenhas incríveis!

Obrigado, querida Arlete Menezes! 
Fico até sem palavras para agradecer tanto carinho.

Pedro Antônio de Oliveira

31.10.20

Plenitude


Essa sensação que dá
De não precisar de mais nada
De estar sempre a gingar
Numa rede presa à Lua.

Pedro Antônio de Oliveira

25.10.20

Além do viver


Céu baixo, grosso, cinzento
e uma luz vaga pelo ar
chama-me ao gosto de estar
reduzido ao fermento
do que em mim a levedar
é este estranho tormento
de me estar tudo a contento,
em todo o meu pensamento
ser pensar a dormitar.

Mas que há para lá do sonhar?

Vergílio Ferreira

19.10.20

Breu


Quando a última estrela se apagar, 
quem conseguirá contar 
quantas mariposas bailavam 
no incandescente luar 
da lamparina?

Pedro Antônio de Oliveira

12.10.20

Haverá quem duvide...


O meu amor diz mentiras e inventa verdades
Com as tintas de um grande pintor
Se alguém me diz que ele pode me ferir com sua vaidade 
Eu prefiro não saber
Não acredito.

O meu amor, imperfeito ou perfeito,
Fui eu quem quis assim.

E sou feliz, sou feliz e sou feliz
E não me importa mais nada.

Maria Bethânia / Composição: Jaime Alem

Que seu coração volte a se lembrar


 Acima das paisagens de algodão,
sua estrela brilha e ainda espera por você.

Pedro Antônio de Oliveira

14.9.20

A primeira vez da idade


A vez que tive mais idade foi aos cinco anos. 

Meu pai, com solenidade que eu desconhecia, 
perante seus superiores hierárquicos, 
apontou e disse:

 Este é meu filho! 

E deu-me a mão coroando-me rei.

Mia Couto

1.9.20

Tecelã


No silêncio, 
a aranha tece sua estrada prateada 
rumo ao nada. 

No orvalho da madrugada, 
ela espera o futuro ali, 
sentada. 

Um dia, seu fio a levará ao sétimo céu; 
isso, sim, quando for uma aranha encorajada, 
gangorrando, dependurada, 
na pálida luz que iluminou seus labirintos.

Pedro Antônio de Oliveira

30.8.20

A menina dos potes de mel

Ela caminhava como uma estrela sozinha, deixada para trás pelos irmãos mais velhos. O sol era tão forte que, de vez em quando, ela parava um pouco à sombra de uma castanheira para limpar o suor que banhava a pele jovem de menina. 

A doçura daquela missão tinha muito a ver com os potes de mel que vendia. Tudo era produzido pelo pai, ferroviário, no quintal de sua casa. A mãe era tecelã, uma zelosa dona de casa com seus seis filhos. O pai, por força da necessidade, logo se revelou um habilidoso regente de uma orquestra feita de ouro. Passeava entre os caixotes de abelhas como quem protegia crianças num berçário. 

A filha mais nova se esforçava para convencer seus potenciais clientes.

– É ótimo para curar gripe, garganta inflamada, tosse e nariz escorrendo – dizia a garota completamente vermelha da quentura do meio da tarde. Tão pequena ainda, mas tão determinada a se tornar uma vendedora de respeito. Às vezes, botava os potes dourados no chão para conseguir escalar a ladeira.

 Compra, compra de mim um pote de mel. É muito bom para a saúde, curar chieira no peito, fortalecer menino que nasceu franzino e desgrudar pigarro esfolando a goela.

Não havia quem não se comovesse ao ver aquela mocinha frágil, custando a carregar a saborosa mercadoria, arrastando seus chinelos velhinhos sobre a terra grosseira.

 Quando a gente está quase gripando, minha mãe derrete bastante mel no leite quente, mistura umas folhas verdes e dá esse chá pra gente beber.

Animados, os crédulos fregueses perguntavam:

 É mesmo? E vocês melhoram?

E com a transparência de um pequeno anjo esquecido na Terra, ela respondia:

 Ah... nada!

Arrancando risos de todo mundo, diante de tamanha sinceridade, a jovem vendedora ia colecionando sorrisos de estranhos pelo caminho, enquanto via, um a um, os potes de mel desaparecendo da sacola. Ela voltava para casa com os bolsos cheios de dinheiro, na certeza de ter vendido muito mais que a doçura daquele néctar dos deuses, ao distribuir de brinde a leveza e a inocência da infância.

(Esta é uma história verdadeira. Minha mãe é a menina dos potes de mel.)

Pedro Antônio de Oliveira

29.8.20

Uma de minhas saudades


Minha avó amava aquela pilha de discos de vinil. Talvez, hoje, muita gente não faça a mínima ideia do que seja isso. Na lista de seus preferidos, havia um português que cantava o Carimbó e a saudade de sua terra. Um outro deixava vovó vidrada com sua música bonita sobre alguém sentado à beira de um caminho quase sem fim. Acho que a vó sentia muita falta do vô, quando escutava essa.

Ao voltar da escola, vovó cantava pra mim, batendo palmas: “Chegou o general da banda... ê... ê...! Chegou o general da banda... ê... a!”, da Elis, na maior alegria. Vovó, sempre musical. Ela também adorava rádio. Ficava abraçada a ele pelas longas horas da tarde.

Agora paro pra pensar e descubro que as canções pareciam um pouco a história dela. A vó passava horas ouvindo música. Pedia pra trocar o disco, repetir um e outro, ou desligar de repente, porque já estava cansada e queria puxar um cochilo.

Às vezes, tinha vontade de ouvir as minhas, bem na hora em que ela queria as dela. As pessoas diziam que eu era o santo da paciência. Mas, certa vez, me irritei porque vovó não deixava interromper seus LPs, e ainda botou defeito nos meus. Chateado, eu me tranquei no quarto, me fazendo de vítima.

De vez em quando, a vó recebia a visita de dona Maria. Antes de abrir a porta, eu penteava seus cabelos brancos, amarrotados de tanto ficar deitada. A vizinha chegava com intimidade de amiga. As duas conversavam e davam sonoras gargalhadas. Elas, quase da mesma idade, pareciam tão meninas, quando se juntavam para tagarelar. Era a luz da vida voltando a brilhar em seus olhos.

Se chovia forte, vovó mandava acender velas e todo mundo se reunia no quarto pra rezar. Confesso que aquelas orações me deixavam ainda mais apavorado, pois era sinal de que a tempestade estava feia.

Aos poucos, ela começou a arrastar devagarinho o chinelo pela casa. Com o tempo, era empurrada numa cadeira, uma espécie de carrinho de bebê para adultos. O fim se parece com o começo. Vamos desaprendendo um tanto de coisas e nos tornando mestres em outras. Os olhos ficam embaçados como um vidro suado de chuva.

Mamãe amassava o arroz com o feijão e preparava uma papinha, feito comida de neném. Mesmo assim, de vez em quando, ela engasgava. Era um deus-nos-acuda. Uma aflição! E, como toda criança, a cada dia, ela gostava mais e mais de ouvir histórias. Vovó não podia mais correr, não podia mais se arriscar pelo mundo. Tenho certeza de que era por isso que os livros pareciam aventuras reais que a levavam de volta para a emoção da vida.

Logo que ela começou a reclamar de umas fortes dores na barriga – e vovó nunca se queixava de nada –, alguma coisa me dizia: vêm aí dias cinzas e de silêncio. “Vó, quer que eu bote uma música?” – eu sugeria, lutando para afastar os maus pressentimentos. Ela não queria mais. Nem eu.

Os discos dela e os meus só voltaram a tocar naquela vitrola muito, muito tempo depois, quando a tristeza, distraída, ia sendo levada pelo tempo. Ficaram boas lembranças, coisas que os anos não conseguiram roubar de mim.

No dia em que vovó partiu, fui eu quem dei a notícia a dona Maria. Cheguei a cara na janela baixa da sala da casa dela e contei. Ela chorou, colocando as mãos no rosto, como se quisesse se esconder da pior dor do mundo.

Acho mesmo que os adultos devem renascer lá pelas terras da esperança, um horizonte iluminado por um sol feliz e amarelo, arco-íris, gramado aparadinho pra deitar e rolar, sem contas, sem fila, sem gripe, sem nada de ruim pra nos chatear.

Eu tenho muitas fotos da vovó. Todas alegres. Na caixa de recordações, lá estou eu, bem pequeno, zanzando pelo quintal, quietinho no colo dela ou posando nos dias de festa.

Já sonhei com ela várias e várias vezes. Em uma delas, a gente viajava num trem a vapor, por uma estrada cheia de curvas. Outra vez, eu visitava a vó num prédio bem alto. Subi centenas de degraus sem, ao menos, me cansar, uma sensação esquisita, como se estivesse escalando uma montanha para tocar uma estrela. Será?

Pedro Antônio de Oliveira

18.8.20

Não me canso de sonhar com dias assim

Quero ser aquele que não tem pressa. 
Alguém que descobriu de fato onde mora a paz. 
E depois disso deixar a tarde me arrastar em longos passeios pela vida, 
tomar banho de sol e rir de qualquer coisa 
ao lado de uma boa companhia.

Pedro Antônio de Oliveira

10.8.20

Desde que o samba é samba

 

A tristeza é senhora
Desde que o samba é samba, é assim
A lágrima clara sobre a pele escura
A noite, a chuva que cai lá fora.

Solidão apavora
Tudo demorando em ser tão ruim
Mas alguma coisa acontece
No quando agora em mim
Cantando eu mando a tristeza embora.

O samba ainda vai nascer
O samba ainda não chegou
O samba não vai morrer
Veja, o dia ainda não raiou.

O samba é o pai do prazer
O samba é o filho da dor
O grande poder transformador.

Caetano Veloso

1.8.20

Meu ideal seria escrever...


Meu ideal seria escrever uma história tão engraçada que aquela moça que está naquela casa cinzenta quando lesse minha história no jornal risse, risse tanto que chegasse a chorar e dissesse – “ai, meu Deus, que história mais engraçada!” E então a contasse para a cozinheira e telefonasse para duas ou três amigas para contar a história; e todos a quem ela contasse rissem muito e ficassem alegremente espantados de vê-la tão alegre. Ah, que minha história fosse como um raio de sol, irresistivelmente louro, quente, vivo, em sua vida de moça reclusa (que não sai de casa), enlutada (profundamente triste), doente. Que ela mesma ficasse admirada ouvindo o próprio riso, e depois repetisse para si própria – “mas essa história é mesmo muito engraçada!”.

Que um casal que estivesse em casa mal-humorado, o marido bastante aborrecido com a mulher, a mulher bastante irritada como o marido, que esse casal também fosse atingido pela minha história. O marido a leria e começaria a rir, o que aumentaria a irritação da mulher. Mas depois que esta, apesar de sua má-vontade, tomasse conhecimento da história, ela também risse muito, e ficassem os dois rindo sem poder olhar um para o outro sem rir mais; e que um, ouvindo aquele riso do outro, se lembrasse do alegre tempo de namoro, e reencontrassem os dois a alegria perdida de estarem juntos.

Que nas cadeias, nos hospitais, em todas as salas de espera, a minha história chegasse – e tão fascinante de graça, tão irresistível, tão colorida e tão pura que todos limpassem seu coração com lágrimas de alegria; que o comissário (autoridade policial) do distrito (divisão territorial em que se exerce autoridade administrativa, judicial, fiscal ou policial), depois de ler minha história, mandasse soltar aqueles bêbados e também aquelas pobres mulheres colhidas na calçada e lhes dissesse – “por favor, se comportem, que diabo! Eu não gosto de prender ninguém!” E que assim todos tratassem melhor seus empregados, seus dependentes e seus semelhantes em alegre e espontânea homenagem à minha história.

E que ela aos poucos se espalhasse pelo mundo e fosse contada de mil maneiras, e fosse atribuída a um persa (habitante da antiga Pérsia, atual Irã), na Nigéria (país da África), a um australiano, em Dublin (capital da Irlanda), a um japonês, em Chicago – mas que em todas as línguas ela guardasse a sua frescura, a sua pureza, o seu encanto surpreendente; e que no fundo de uma aldeia da China, um chinês muito pobre, muito sábio e muito velho dissesse: “Nunca ouvi uma história assim tão engraçada e tão boa em toda a minha vida; valeu a pena ter vivido até hoje para ouvi-la; essa história não pode ter sido inventada por nenhum homem, foi com certeza algum anjo tagarela que a contou aos ouvidos de um santo que dormia, e que ele pensou que já estivesse morto; sim, deve ser uma história do céu que se filtrou (introduziu-se lentamente em) por acaso até nosso conhecimento; é divina.”

E quando todos me perguntassem – “mas de onde é que você tirou essa história?” – eu responderia que ela não é minha, que eu a ouvi por acaso na rua, de um desconhecido que a contava a outro desconhecido, e que por sinal começara a contar assim: “Ontem ouvi um sujeito contar uma história...”

E eu esconderia completamente a humilde verdade: que eu inventei toda a minha história em um só segundo, quando pensei na tristeza daquela moça que está doente, que sempre está doente e sempre está de luto e sozinha naquela pequena casa cinzenta de meu bairro.

Rubem Braga

21.7.20

Bicicleta



Lá vai a bicicleta do poeta em direção
ao símbolo, por um dia de verão
exemplar. De pulmões às costas e bico
no ar, o poeta pernalta dá à pata
nos pedais. Uma grande memória, os sinais
dos dias sobrenaturais e a história
secreta da bicicleta. O símbolo é simples.
Os êmbolos do coração ao ritmo dos pedais –
lá vai o poeta em direção aos seus
sinais. Dá à pata
como os outros animais.

O sol é branco, as flores legítimas, o amor
confuso. A vida é para sempre tenebrosa.
Entre as rimas e o suor, aparece e desaparece
uma rosa. No dia de verão,
violenta, a fantasia esquece. Entre
o nascimento e a morte, o movimento da rosa floresce
sabiamente. E a bicicleta ultrapassa
o milagre. O poeta aperta o volante e derrapa
no instante da graça.

De pulmões às costas, a vida é para sempre
tenebrosa. A pata do poeta
mal ousa pedalar. No meio do ar
distrai-se a flor perdida. A vida é curta.
Puta de vida subdesenvolvida.

O bico do poeta corre os pontos cardeais.
O sol é branco, o campo plano, a morte
certa. Não há sombra de sinais.
E o poeta dá à pata como os outros animais.

Se a noite cai agora sobre a rosa passada,
e o dia de verão se recolhe
ao seu nada, e a única direção é a própria noite
achada? De pulmões às costas, a vida
é tenebrosa. Morte é transfiguração,
pela imagem de uma rosa. E o poeta pernalta
de rosa interior dá à pata nos pedais
da confusão do amor.
Pela noite secreta dos caminhos iguais,
O poeta dá à pata como os outros animais.

Se o sul é para trás e o norte é para o lado,
é para sempre a morte.
Agarrado ao volante e pulmões às costas
como um pneu furado,
o poeta pedala o coração transfigurado.
Na memória mais antiga a direção da morte
é a mesma do amor. E o poeta,
afinal mais mortal do que os outros animais,
dá à pata nos pedais para um verão interior.


Herberto Helder de Oliveira


21.6.20

Um poema


Não tenhas medo, ouve:
É um poema
Um misto de oração e de feitiço...
Sem qualquer compromisso,
Ouve-o atentamente,
De coração lavado.
Poderás decorá-lo
E rezá-lo
Ao deitar,
Ao levantar,
Ou nas restantes horas de tristeza
Na segura certeza
De que mal não te faz.
E pode acontecer que te dê paz...

Miguel Torga

3.6.20

O grande erro


Eu juro que nunca fui um garoto violento. Pra ser sincero, na escola sempre estive mais para saco de pancadas do que mesmo para um facínora desalmado. Mas, quando vi, já estava dando um soco no nariz daquele menino que não conhecia e de quem nunca senti raiva na vida.

Lembro que ele estava mexendo com as meninas no corredor, antes de começar a aula. Daí, uma delas pediu que eu "desse um jeito" naquele chato. Foi quando o empurrei e deferi o golpe bem no rosto dele, um nocaute. Ele não reagiu. Apenas levou a mão ao nariz, provavelmente sentindo o calor do sangue a escorrer pela face. Jamais me esqueci daquela cena. Eu me senti um covarde, um verdadeiro pusilânime, principalmente porque o menino não revidou.

Aquilo não era uma briga nem era uma disputa. Não houve provocações, a história não era comigo. Pra que fui cometer aquela besteira? Aposto que doeu mais em mim do que nele. As meninas comemoraram meu gesto heroico, como se eu fosse um vencedor. Vencedor? Vencedor de nada! Se eu pudesse, voltaria no tempo. Creio que meninos sejam todos assim, incongruentes, estranhamente cruéis sem necessidade: sempre que encontram alguém mais fraco, tentam dominar, mesmo um sujeito como eu, uma verdadeira mosca morta para assuntos de guerra. Apanhar dói menos, infinitamente menos, concluí.

Devia ter pedido desculpas, dito a ele que tudo foi um engano, uma insanidade, que eu estava arrependido. Ou, quem sabe, oferecer meu nariz para que ele também pudesse dar um socão. Não fiz nada disso. Outra vez fui um fraco; outra vez, um perdedor.

O tempo foi passando e fomos crescendo. Algumas vezes eu o encontrei no ônibus. E ele me olhava com a cara fechada, olhar amedrontador como se dissesse que um dia iria dar o troco. Eu sentia só um dedinho de medo dessa hora chegar. Nunca chegou.

Anos mais tarde, eu já seria adulto. Uma garota grávida, que conheci menina dos corredores do colégio, pregaria seus olhos em mim, descuidadamente. A seu lado, um rapaz, um velho conhecido meu. Ele me olharia profundamente, segurando um cachorrinho felpudo em plena manhã luminosa. Dizem que pra gente sempre se lembrar de alguém, mesmo que os anos se passem, basta fixar a atenção nos olhos. O olhar permanece igual. Tive a certeza disso. Era minha vítima, a do soco. Eu, o agressor, teria uma segunda chance: pedir desculpas.

Meu coração bateria acelerado e eu me apresentaria. E ele se lembraria. E sorriria impressionado por eu ainda me recordar daquele dia, daquela cena. E ele aceitaria meu pedido de perdão e trocaríamos um aperto de mãos. E ficaríamos amigos. Uma amizade adiada em muitos anos.

Ele parecia um cara bem divertido. Leve, talvez não quisesse revolver a poeira do tempo. O garoto, agora um rapaz, em paz, sorriu para minha mãe no momento em que ela passou perto dele e brincou com seu cãozinho. Ele foi gentil, devolveu o afago em seu pet com uma cara boa, a melhor cara do mundo. Eu permaneci vacilante, sem saber se puxava conversa com ele, se perguntava sobre aquele fato do passado. E a chance de novo se foi.

Esta é uma história real que ainda espera por um final, de preferência feliz. Se eu esbarrar outra vez com minha vítima, não vou deixar escapar de novo a oportunidade de reparar meu grande erro. E aí, eu conto aqui pra você. Prometo.

Pedro Antônio de Oliveira

24.5.20

Cadê você mesmo?


Seus olhos não eram assim os de uma vilã. E sua voz meio adocicada fazia cócegas nos meus ouvidos. Tão gostoso que me dava vontade de ouvir tudo o que ela queria me dizer. Não importa quanto tempo isso levasse. Pena que alguns vazios não se curam com música.

Não conseguia sentir raiva dela. Só um pouquinho de assombro. Ela me apareceu num dia triste. Acho um absurdo os dias tristes se parecerem com dias de verão, de céu azul e sol luzindo. Dias tristes deveriam ter, no mínimo, temporal com raios, vento gelado e pessoas metidas em suas casas.

Saudade era uma menina. O nome dela não era Verônica, nem Catarina nem Carolina. Era Saudade.

– Se você achar estranho, pode me chamar de Aluana – ela sugeriu.

– Aluana?

– Hum-hum. É uma mistura de A Lua + Ana. Sempre achei bonito.

Eu disse para Saudade ou Aluana que ela era cruel, esbanjando aquele sorriso todo num dia em que eu não estava bem. Ou era deboche? Mas falei isso sem mágoa porque ela possuía um frescor que ia muito além do balanço que tinha nos cabelos.

– Eu não sou malvada. Veja! Eu pareço um monstro?

O pior é que não parecia mesmo. Linda, nem ruiva nem morena, apenas uma menina.

– Garoto, deixa de ser bobo. Vou te mostrar uma coisa que você vai amar.

– Garoto? Eu já sou um adulto. Não sou mais menino.

– Você está enganado.

– Não, não estou não. Olhe pra mim.

– Estou olhando, ora!

– Então, não vê que já sou velho, que já vivi uma porção de histórias tristes?

Aluana tirou de sua bolsinha prateada um espelho, que ficou gigante de repente.

– Observe você mesmo. É assim que você é.

Minha surpresa foi tão grande que só faltei desmaiar.

– Me diga com o que se parece? Com um vovô gagá?

Incrível, minha aparência era a de um garotinho. Um menino de sete, oito anos...

– Mas eu não sou essa criança aí.

– Pare com isso. Não sou eu quem está dizendo. É você quem se vê agora neste espelho – advertiu Aluana.

– Tem razão. Eu virei um menino – concordei.

– Errado. Você sempre foi esse menino.

Pedro Antônio de Oliveira

21.4.20

Instituto Educacional Missão Paz promove encontro literário virtual sensacional!


Os estudantes do quarto ano do Instituto Educacional Missão Paz leram meu livro "Oreosvaldo, o Pássaro das Sombras" (Editora Lê) e participaram de um bate-papo eletrizante via internet no dia 15 de abril. Pena que não foi possível ir até a escola, conversar pessoalmente com a galerinha e abraçar todo mundo, como geralmente tenho o prazer de fazer. O momento agora é de se proteger contra a Covid-19 e manter o isolamento social. A professora Renata Moura foi quem comandou os trabalhos literários.

A garotada foi incrivelmente demais nas perguntas, no carinho e na interação! Permanecemos juntos por mais de uma hora, compartilhando ideias e nos divertindo muito.

Obrigado ao Instituto Educacional Missão Paz pela oportunidade! Fiquei muito feliz ao saber que os alunos gostaram das aventuras do nosso poeta e blogueiro misterioso, o Pássaro das Sombras! ♥

Quer saber mais? Clique aqui e leia.


Pedro Antônio de Oliveira

16.4.20

Penso nisso amanhã


Um dom
Não me negar a ser feliz
Aprendi
Posso ser rico sem tostão
Quero é muita história pra poder contar
Da vida nunca fugi
Mas se ela fica complicada
Penso nisso amanhã
É bom poder ser dono do nariz
Aprendi
Mas vou ser sempre um aprendiz
Numa foto não dá pra guardar
O que você é pra mim
Nosso caso quero viver agora
Não deixo pra amanhã
Oh, oh, oh...
Não deixo pra manhã.

Paulinho Lima / Nico Rezende

2.4.20

Pedido


Se notar que eu estou crescendo, me volte logo no tempo, ó, Senhor de Todos os Mistérios. 
Quando começar a me cansar de tudo, vou precisar ver a vida como na primeira vez.

Pedro Antônio de Oliveira

Este vídeo lindo foi feito por minha amiga Angelica.
Siga no Instagram e no Facebook: @cafemeexpresso

(Este pensamento foi publicado neste blog em 12/9/2009. Clique e relembre. E, segundo a Angelica, desde a primeira vez que ela o leu, essas palavras nunca saíram da cabeça e do coração dela. 
Obrigado, querida Angel!)

27.3.20

Aquele mundo mais bonito


Gira, rosa dos ventos.
Quem sabe voa vindo da janela
um daqueles dias perdidos.

Hoje deu saudade de uns abraços
e de ver sem medo aquela nuvem branca em formato de girafa
dos céus azuis das minhas infâncias.

O que é mesmo a vida
com todo aquele amontoado de coisas que carregamos apressados
pelo tempo afora,
se agora
quase nada serve para preencher uma imensidão?

Pedro Antônio de Oliveira

Quase sem querer


Tenho andado distraído
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente
Sou tão tranquilo e tão contente.

(...)

Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos
Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto.

Eduardo Dutra Villa Lobos / Marcelo Augusto Bonfá / Renato Manfredini Júnior / 
Renato da Silva Rocha