16.3.18

Segundas mornas intenções


Subindo a avenida
Mudando a direção
Se eu jogar a vida num refrão
Você, eu sei, vai devolver pra mim.

Lô Borges

Diferentão


Em menino eu sonhava 
de ter uma perna mais curta
só pra poder andar torto.

Manoel de Barros 

Caleidoscópio


A vida da gente é mistério
A estrada do tempo é segredo
O sonho perdido é espelho
O alento de tudo é canção.

O fio do enredo é mentira
A história do mundo é brinquedo
O verso do samba é conselho
E tudo o que eu disse é ilusão.

Paulo César Pinheiro

Em pétalas


A tarde continha
tudo o que eu queria:
a flor e o domingo.

Hamilton Faria

3.3.18

A invenção da infância

Ser criança não significa ter infância. 

Que mundo estamos oferecendo às nossas crianças? A que valores elas estão expostas a todo momento? É certo que os pequenos compartilhem os mesmos ambientes físicos e virtuais dos adultos? O que esperamos de uma criança? Que papéis elas devem desempenhar nessa curta fase da meninice? Vale a pena reservar uns minutinhos para assistir a este vídeo e refletir sobre o futuro que queremos para nós e, é claro, para a meninada. Será que ainda há tempo de operarmos uma transformação positiva nesse cenário, no mínimo, desolador?


Pedro Antônio de Oliveira

22.2.18

Autopsicografia


O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve
Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele teve
Mas só a que eles não têm.

E, assim nas calhas de roda,
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

11.2.18

Não se deixe


Mas sei que Deus está no perigo e eu
eu preciso de falhas.
Preciso da tinta descascada,
da aspereza que esqueceram de polir,
do defeito que fugiu aos olhos.

Antes o risco,
antes a inquietação e suas agulhas
do que amarrar-se à permanência
e murchar-se.
Antes o precipício
do que a clausura
entre paredes com olhos
quando estamos nus.

Carmen Sylvia Alves de Vasconcelos

Poema ao Verão


Vem...Verão... com pétalas de sol zunindo
a tarde ameaçada pelo incêndio da noite 
súbita de harmonias, rasgada de ocultas aves
ciciando a espuma translúcida dos olhos,
devorada de penumbra.

Vem... Verão... coberto de sonhos rente ao rio
exausto, de vermes apodrecidos
sob o hálito fugidio das folhas secas
– de sol e mistério breve – 
num harpejo de searas e semente.

Vem... Verão... dócil sonâmbulo abrindo
as entranhas da terra grávida,
de secura e pólen amarelo
em crepúsculos voando o inverno
num violino de cigarras.

Vieira Calado

5.2.18

Soerguer-se


As pedras que erguemos 
do percurso que seguimos 
são para subirmos novamente 
no muro que nos escondeu o sol. 

Thiago Azevedo

4.2.18

O mundo não está aí pra virar poesia


o mundo não está aí pra virar poesia
embora a árvore parada aguarde em silêncio
pronta pra ser fotografada
o gato de preto e punhos brancos
ande sempre com seu melhor traje
e os pássaros em voo sincronizado
denunciem pela perfeição dos movimentos
que ensaiaram durante horas

o vento orquestra uma sinfonia muda
os panos de chão dançam pendurados nas janelas
as formigas
fingindo trabalhar
desfilam com suas folhas verdes
alegorias de mão
e mesmo as paredes se deixam cobrir de limo
descascam voluntariamente
em permanente exposição

Ricardo Silvestrin

3.2.18

Passa o tempo


Morena, dos olhos d'água,
Tira os seus olhos do mar.
Vem ver que a vida ainda vale
O sorriso que eu tenho
Pra lhe dar.

Chico Buarque

23.1.18

Ainda estamos juntos


Alguém pode morar para sempre no nosso coração, mesmo não estando mais aqui com a gente, na Terra. É a pressa, a correria, a rotina agitada que vão matando as pessoas especiais dentro de nós. Com o tempo, a gente nem se lembra mais da voz, do sorriso, do jeito da pessoa... enfim!... de que aquele alguém tão importante um dia existiu. Isso não é péssimo!?

Numa tarde dessas, abri uma caixa de retratos antigos. E lá estavam minha avó, minhas tias, um tio superquerido, primos amados... Todos já se foram, deixando para trás um vazio enorme. Minha tristeza maior foi perceber que a loucura do dia a dia estava apagando aqueles rostos da minha memória, como se eles nunca tivessem feito parte da minha vida.

São tantos afazeres, tanta bugiganga que a gente carrega e persegue, que fica difícil reservar um tempinho só para recordar quem passou pela nossa história. Será que essa agitação que bagunça nossa vida já não é uma desculpa, um modo inconsciente de fugir, não encarar a realidade, não enxergar as perdas, não reunir os pedaços da gente que foram ficando pelo caminho?

Em algum lugar, alguém nos observa e continua nos amando. Pense nisso.

Pedro Antônio de Oliveira

Decifra-me


E eu viajei sobre os telhados das casas como faço todas as noites. Pessoas e bichos dormiam, sem desconfiar de nada. Somente os olhos bem acesos das estrelas, cintilantes como reflexos de sol no orvalho, miravam minha silhueta transparente na madrugada fria.

Abri os braços como se eu fosse um querubim. E, no fundo, quem sabe eu era, todo azul na minha imaginação, atirando flechas incandescentes sobre o sono da cidade.

Soprei segredos, palavras mágicas, repletas de códigos, e acordei sonhos antigos, quase esquecidos.

E antes de o dia clarear, minha missão estava cumprida. Voltei para meu quarto para seguir minha vida normal, praticamente invisível também, e, em seguida, caminhar pelo mundo como alguém comum, mais um filho de Deus.

Mas, na próxima noite...

Pedro Antônio de Oliveira

12.1.18

Ao relento

 
No olho da rua, a verdade é nua, crua, abusada. No olho da rua, não se esconde nada, não se tem cantos, gavetas, alçapões, caixas pretas ou velhos porões debaixo da escada. Sem esconderijo atrás da cortina, apenas os passos que pisam esquinas, amassam saudades na pedra molhada.

Flora Figueiredo

6.1.18

Poema inesperado


(...)

 Que eu possa 
cada vez mais desaprender 
de pensar o pensado 
e assim poder 
reinventar o certo pelo errado.

Ferreira Gullar

4.1.18

Sempre no coração, haja o que houver


Ai, como eu gosto dessa música. A letra, a melodia... Tudo acontece na medida certa. Milton Nascimento é fascinante, genial. Alguns artistas atravessam o tempo sempre atuais, sempre surpreendentes. As novas gerações deveriam reservar um tempinho para conhecer músicos como o Milton, ou Bituca, como ele prefere ser chamado, uma vez que as rádios quase não dão mais espaço a essas obras-primas. Uma pena, né!? Precisamos tanto de poesia, leveza, sensibilidade, beleza mesmo! Essa é a palavra. É o que alimenta nossa alma. Pobre de mim se não houvesse poemas como as canções de Milton Nascimento. Querido Milton, obrigado! 😁

Ah, não deixe de conferir a entrevista logo abaixo. Simples e elegante nosso Milton.


Pedro Antônio de Oliveira

30.12.17

Passagem de ano


O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão.
(...)

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida.
(...)

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
(...)

Carlos Drummond de Andrade

Em céu de brigadeiro


Vamos a la playa!
E agarrar o astro-rei com as mãos.
Somos baratas tontas invencíveis
e nada além nos queima, então.
Me alegra tanto este calor
e a luz que abre trilhas 
na escuridão forjada.

Vamos a la playa!
E que um olhar áureo nos fisgue, 
hoje mesmo! É pra já!
Porque viver as espumantes vagas do amor
é muito mais que ter estrelas todas no bolso.
É bem mais que prêmio de loteria.
É alegria! Alegria!
É tudo mais que sonhamos na vida.

Pedro Antônio de Oliveira

*"Céu azul de brigadeiro" (ou simplesmente "céu de brigadeiro") é uma expressão da gíria carioca dos anos 1940/50 que significa "jogar pelo seguro"; que está tudo bem, nos conformes, calmo; que não há perigo nem chateação à vista.

#CheioDeEsperança


E quando a gente percebe que aquele caminho não é o da gente? Que fizemos planos, sonhamos tudo bem coloridinho, mas, no fim, nos decepcionamos? Tudo bem. A vida é assim, pessoal. Ninguém casa pensando em descasar. Ninguém escolhe uma profissão pensando em sair dela logo ali na frente.

Mas, se seu coração não está feliz, se seu dia se tornou um fardo pesado demais, Ora, ora... acenda o alerta! Não acredito que a gente tenha nascido para carregar cruz o tempo inteiro, não! É claro que ninguém vive num mar de rosas! Seria ótimo se assim fosse.

As dificuldades existem, as pedras nos caminhos existem, pessoas que são verdadeiras montanhas intransponíveis existem, os sabotadores existem... Aff! Mas vamos lá! Ser feliz é bom demais, né não!? Sonhe diferente, aposte em novos projetos, acredite que as coisas vão, sim, melhorar e que tudo pode ser mais leve e agradável! Pensamento positivo faz toda a diferença. Saia da inércia! "Levanta, sacode a poeira e dá a volta por cima!"

Um ano novo começa. Mas é VOCÊ quem tem de fazê-lo verdadeiramente novo. Reflita, veja o que necessita ser mudado. Tenha coragem! Aventure-se mais. Se não der certo, recomece. Pelo menos, você não vai se arrepender por ter tentado.

Eu estou aqui, torcendo por você. Torça também por mim! 😀

Feliz 2018! Saúde, amor e muita alegria!


Pedro Antônio de Oliveira

28.10.17

... em poemas atrasados


Talvez sejamos mais do que pessoas, 
temos tamanhos diferentes
e não servimos nos lugares 
que nos foram destinados.

Escreve sempre que precisares 
de uma porta onde caibas.

Nunca trago chaves comigo.

Margarida Ferra