29.5.18

Santa fé


Toda incerteza passa, 
passarinho.
Toda alegria é raça.
A coragem distrai o medo.
O sorriso abre caminhos.

Pedro Antônio de Oliveira

13.5.18

Infinito interior


Só vale morar em alguém
se não nos ausentarmos de nós.

Frei Jaime Bettega

5.5.18

Sobre viver


Da terra retiro sua gama de cores:
ocre, vermelho, ferrugem,
terracota, outono, o sol.

E pinto a alma em pinceladas grossas,
camada sobre camada,
para aguentar o peso do céu.

Roseana Murray

22.4.18

Com a missão de acender estrelas

Foto: Marcelo Santos
E se de repente todas as estrelas se apagassem dentro de nós? Estaríamos condenados à escuridão de uma vida sem sonhos? Em tempos de profundo desânimo, motivado por crises de toda ordem, o exercício de manter viva a chama da esperança parece mesmo exigir um esforço sobre-humano. Certa disso, a escritora e poeta Dora de Oliveira apressou-se em acender seu candeeiro de poemas e agora lança “Por que apagaram as estrelas?”, pela Pomar de Ideias Editora, no próximo dia 26, no Sesc Palladium. “Mario Quintana já anunciava: ´Que tristes os caminhos, se não fora a mágica presença das estrelas’”, lembra a autora. “Por isso, o desejo de me expressar por meio de metáforas e, assim, vislumbrar, quem sabe, o renascimento interior de que tanto necessitamos.”

Dora, que já publicou “Voos diversos” (Câmara Brasileira de Jovens Escritores), em 2014, e participou de várias antologias literárias – uma delas em São Paulo e três na Itália –, conta que, há algum tempo, vem burilando os textos deste novo livro, sempre com os olhos voltados para o céu, com a avidez de quem precisa redescobrir sua humanidade. “São tentativas, quase instintivas, de responder às inquietações cotidianas, de não me tornar uma pessoa endurecida, dolorida, com medo do outro”, confidencia.

Segundo ela, o ser humano distancia-se de sua verdadeira essência ao caminhar quase sempre sobrecarregado por tarefas que se assemelham a um pesado fardo. “Quem terá a coragem de acender sua estrela, desviando o olhar da linha reta para tocar belezas necessárias e libertadoras?”, questiona. “Espero que esta leitura quebre um pouco as correntes que nos prendem.”

A poeta não nega que a escrita dos poemas represente uma catarse. “O sonho é o que nos sustenta e precisa ser alimentado numa época de desencanto”, sugere.

Dora estabeleceu para si uma rotina de produção literária. “Embora ame as tarefas do dia a dia, abandono tudo, se for preciso, e vou escrever.” Meus filhos logo compreenderam esse amor pelas palavras e me incentivam a seguir em frente.

Para fugir do temeroso efeito manada, que aprisiona, Dora revela ainda que, mesmo em seu ambiente profissional, por exemplo, encontra formas de contemplar o céu real e o imaginário, seja através do vidro da janela ou escapando até o vão livre do prédio, em dias luminosos ou nublados. “Até as nuvens conseguem refletir movimento, passagem, transposição. Até elas podem nos ensinar um caminho diferente daquele obrigatório, que nos foi prescrito como indispensável. Abracemos com vigor nossas chances”, conclui.



AGENDE AÍ

O quê: Dora de Oliveira lança o livro “Por que apagaram as estrelas?” (Pomar de Ideias Editora, 64 páginas, formato 11cm x 18 cm)
Quando: Nesta quinta-feira, dia 26/4, a partir das 19h
Onde: Sesc Palladium, foyer da Av. Augusto de Lima, 420 – Centro | Belo Horizonte | MG

“Neste livro Dora cumpre a função do artista verdadeiro, que observa o mundo, o traduz com as peculiaridades de seu espírito e devolve suas impressões a outros, como um náufrago que pacientemente engarrafa mensagens a destinatários desconhecidos.” 
Fernando Righi, jornalista e músico

“Os dias áridos, aqueles em que somos forçados a viver segundo o preceito ocidental de sobrevivência e competição, não podem ser capazes de anular em nós o prazer da vida. “Por que apagaram as estrelas?”, de Dora de Oliveira (Pomar de Ideias Editora), convida o leitor fatigado a olhar mais para o alto, na tentativa de redescobrir tudo aquilo que dá sabor e sentido a nossa existência, e que, por motivos diversos, pode ter ficado perdido. A obra é um clamor lírico contra o turbilhão de urgências desnecessárias que sufocam e empanam o brilho de ser livre e feliz.”
Pedro Antônio de Oliveira, jornalista e escritor

11.4.18

Que brilha


Sem foguetes nem balões,
 carros alados ou corcéis.
É com o coração 
que se alcança sua estrela.

Pedro Antônio de Oliveira

28.3.18

Renovação


Vai fazer falta um bom outono
depois de um verão tão longo.
O verde está secando
e o vento sul se demora,
mas eu sigo esperando
que cheguem cantando
a chuva e minha hora.

Silvio Rodriguez

23.3.18

O que é simpatia


Simpatia - é o sentimento
Que nasce num só momento,
Sincero, no coração;
São dois olhares acesos
Bem juntos, unidos, presos
Numa mágica atração.

Simpatia - são dois galhos
Banhados de bons orvalhos
Nas mangueiras do jardim;
Bem longe às vezes nascidos,
Mas que se juntam crescidos
E que se abraçam por fim.

São duas almas bem gêmeas
Que riem no mesmo riso,
Que choram nos mesmos ais;
São vozes de dois amantes,
Duas liras semelhantes,
Ou dois poemas iguais.

Simpatia - meu anjinho,
É o canto do passarinho,
É o doce aroma da flor;
São nuvens dum céu d'Agôsto,
É o que m'inspira teu rosto...
- Simpatia - é - quase amor!

Casimiro de Abreu

22.3.18

Já era tarde


Quando a lua apareceu
Ninguém sonhava mais do que eu...

Rita Lee

16.3.18

Segundas mornas intenções


Subindo a avenida
Mudando a direção
Se eu jogar a vida num refrão
Você, eu sei, vai devolver pra mim.

Lô Borges

Diferentão


Em menino eu sonhava 
de ter uma perna mais curta
só pra poder andar torto.

Manoel de Barros 

Caleidoscópio


A vida da gente é mistério
A estrada do tempo é segredo
O sonho perdido é espelho
O alento de tudo é canção.

O fio do enredo é mentira
A história do mundo é brinquedo
O verso do samba é conselho
E tudo o que eu disse é ilusão.

Paulo César Pinheiro

Em pétalas


A tarde continha
tudo o que eu queria:
a flor e o domingo.

Hamilton Faria

3.3.18

A invenção da infância

Ser criança não significa ter infância. 

Que mundo estamos oferecendo às nossas crianças? A que valores elas estão expostas a todo momento? É certo que os pequenos compartilhem os mesmos ambientes físicos e virtuais dos adultos? O que esperamos de uma criança? Que papéis elas devem desempenhar nessa curta fase da meninice? Vale a pena reservar uns minutinhos para assistir a este vídeo e refletir sobre o futuro que queremos para nós e, é claro, para a meninada. Será que ainda há tempo de operarmos uma transformação positiva nesse cenário, no mínimo, desolador?


Pedro Antônio de Oliveira

22.2.18

Autopsicografia


O poeta é um fingidor
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que leem o que escreve
Na dor lida sentem bem
Não as duas que ele teve
Mas só a que eles não têm.

E, assim nas calhas de roda,
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Fernando Pessoa

11.2.18

Não se deixe


Mas sei que Deus está no perigo e eu
eu preciso de falhas.
Preciso da tinta descascada,
da aspereza que esqueceram de polir,
do defeito que fugiu aos olhos.

Antes o risco,
antes a inquietação e suas agulhas
do que amarrar-se à permanência
e murchar-se.
Antes o precipício
do que a clausura
entre paredes com olhos
quando estamos nus.

Carmen Sylvia Alves de Vasconcelos

Poema ao Verão


Vem...Verão... com pétalas de sol zunindo
a tarde ameaçada pelo incêndio da noite 
súbita de harmonias, rasgada de ocultas aves
ciciando a espuma translúcida dos olhos,
devorada de penumbra.

Vem... Verão... coberto de sonhos rente ao rio
exausto, de vermes apodrecidos
sob o hálito fugidio das folhas secas
– de sol e mistério breve – 
num harpejo de searas e semente.

Vem... Verão... dócil sonâmbulo abrindo
as entranhas da terra grávida,
de secura e pólen amarelo
em crepúsculos voando o inverno
num violino de cigarras.

Vieira Calado

5.2.18

Soerguer-se


As pedras que erguemos 
do percurso que seguimos 
são para subirmos novamente 
no muro que nos escondeu o sol. 

Thiago Azevedo

4.2.18

O mundo não está aí pra virar poesia


o mundo não está aí pra virar poesia
embora a árvore parada aguarde em silêncio
pronta pra ser fotografada
o gato de preto e punhos brancos
ande sempre com seu melhor traje
e os pássaros em voo sincronizado
denunciem pela perfeição dos movimentos
que ensaiaram durante horas

o vento orquestra uma sinfonia muda
os panos de chão dançam pendurados nas janelas
as formigas
fingindo trabalhar
desfilam com suas folhas verdes
alegorias de mão
e mesmo as paredes se deixam cobrir de limo
descascam voluntariamente
em permanente exposição

Ricardo Silvestrin

3.2.18

Passa o tempo


Morena, dos olhos d'água,
Tira os seus olhos do mar.
Vem ver que a vida ainda vale
O sorriso que eu tenho
Pra lhe dar.

Chico Buarque

23.1.18

Ainda estamos juntos


Alguém pode morar para sempre no nosso coração, mesmo não estando mais aqui com a gente, na Terra. É a pressa, a correria, a rotina agitada que vão matando as pessoas especiais dentro de nós. Com o tempo, a gente nem se lembra mais da voz, do sorriso, do jeito da pessoa... enfim!... de que aquele alguém tão importante um dia existiu. Isso não é péssimo!?

Numa tarde dessas, abri uma caixa de retratos antigos. E lá estavam minha avó, minhas tias, um tio superquerido, primos amados... Todos já se foram, deixando para trás um vazio enorme. Minha tristeza maior foi perceber que a loucura do dia a dia estava apagando aqueles rostos da minha memória, como se eles nunca tivessem feito parte da minha vida.

São tantos afazeres, tanta bugiganga que a gente carrega e persegue, que fica difícil reservar um tempinho só para recordar quem passou pela nossa história. Será que essa agitação que bagunça nossa vida já não é uma desculpa, um modo inconsciente de fugir, não encarar a realidade, não enxergar as perdas, não reunir os pedaços da gente que foram ficando pelo caminho?

Em algum lugar, alguém nos observa e continua nos amando. Pense nisso.

Pedro Antônio de Oliveira