21.4.20

Instituto Educacional Missão Paz promove encontro literário virtual sensacional!


Os estudantes do quarto ano do Instituto Educacional Missão Paz leram meu livro "Oreosvaldo, o Pássaro das Sombras" (Editora Lê) e participaram de um bate-papo eletrizante via internet no dia 15 de abril. Pena que não foi possível ir até a escola, conversar pessoalmente com a galerinha e abraçar todo mundo, como geralmente tenho o prazer de fazer. O momento agora é de se proteger contra a Covid-19 e manter o isolamento social. A professora Renata Moura foi quem comandou os trabalhos literários.

A garotada foi incrivelmente demais nas perguntas, no carinho e na interação! Permanecemos juntos por mais de uma hora, compartilhando ideias e nos divertindo muito.

Obrigado ao Instituto Educacional Missão Paz pela oportunidade! Fiquei muito feliz ao saber que os alunos gostaram das aventuras do nosso poeta e blogueiro misterioso, o Pássaro das Sombras! ♥

Quer saber mais? Clique aqui e leia.


Pedro Antônio de Oliveira

16.4.20

Penso nisso amanhã


Um dom
Não me negar a ser feliz
Aprendi
Posso ser rico sem tostão
Quero é muita história pra poder contar
Da vida nunca fugi
Mas se ela fica complicada
Penso nisso amanhã
É bom poder ser dono do nariz
Aprendi
Mas vou ser sempre um aprendiz
Numa foto não dá pra guardar
O que você é pra mim
Nosso caso quero viver agora
Não deixo pra amanhã
Oh, oh, oh...
Não deixo pra manhã.

Paulinho Lima / Nico Rezende

2.4.20

Pedido


Se notar que eu estou crescendo, me volte logo no tempo, ó, Senhor de Todos os Mistérios. 
Quando começar a me cansar de tudo, vou precisar ver a vida como na primeira vez.

Pedro Antônio de Oliveira

Este vídeo lindo foi feito por minha amiga Angelica.
Siga no Instagram e no Facebook: @cafemeexpresso

(Este pensamento foi publicado neste blog em 12/9/2009. Clique e relembre. E, segundo a Angelica, desde a primeira vez que ela o leu, essas palavras nunca saíram da cabeça e do coração dela. 
Obrigado, querida Angel!)

27.3.20

Aquele mundo mais bonito


Gira, rosa dos ventos.
Quem sabe voa vindo da janela
um daqueles dias perdidos.

Hoje deu saudade de uns abraços
e de ver sem medo aquela nuvem branca em formato de girafa
dos céus azuis das minhas infâncias.

O que é mesmo a vida
com todo aquele amontoado de coisas que carregamos apressados
pelo tempo afora,
se agora
quase nada serve para preencher uma imensidão?

Pedro Antônio de Oliveira

Quase sem querer


Tenho andado distraído
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente
Sou tão tranquilo e tão contente.

(...)

Tão correto e tão bonito
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos
Sei que, às vezes, uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras
Que nunca são ditas?

Me disseram que você
Estava chorando
E foi então que eu percebi
Como lhe quero tanto.

Eduardo Dutra Villa Lobos / Marcelo Augusto Bonfá / Renato Manfredini Júnior / 
Renato da Silva Rocha

14.3.20

Paragens e velhos mistérios


Sol, solidão, cachorro, alegria, macarrão, vento, amigos, distância, bicicleta, noite, estrelas, música, espinha, sonho, chão, céu, mãe, pai, perfume, margarina, infância, sorte, Deus, ilusão, tristeza, velocidade, leitura, acaso, proteção, dor, escuro, tempo, inocência, benevolência, segredo, chocolate, mistério, borboleta, horizonte, saudade, arco-íris, férias, descanso, passado, mar, ônibus, bola de sabão, reencontro, beleza, ventilador, chiclete, lágrima, alívio, sorriso, sábado, clube, computador, maçã, calor, alô, amor, medo, abraço, árvore, paixão. 

É a vida.
Pedro Antônio de Oliveira

12.3.20

Escuridão?


Era uma daquelas tardes quentes e abafadas de março. Saí da escola louco para tomar o ônibus e chegar logo em casa. Já me preparava para atravessar uma avenida quando vi um casal de cegos. Tive dúvida: será que me ofereço para ajudá-los? A esquina era perigosa. Passavam veículos em alta velocidade. Resolvi me aproximar, porque senti um certo desconforto ao vê-los parados ali, na minha frente.

“Ei, vocês querem uma ajudinha?” O rapaz disse “sim”. A menina segurava seu braço. Formamos um trio simpático em plena tarde calorenta. “Mas eu acho que devemos esperar um pouco, porque o sinal está aberto para os veículos”, falei procurando ser divertido e familiar. O moço concordou com um “tudo bem” descolado e continuou o papo com a garota. Achei melhor assim. Daí, me senti mais à vontade. Isso durou só um segundinho, porque, no momento seguinte, pensei que pudesse estar atrapalhando o papo dos dois, sendo, digamos, um pouco intruso.

Esperei o sinal ficar verde para pedestres. Uma pequena dose de cautela não faria mal algum. Que graça tem virar boliche humano? E, depois, parecia que os dois não estavam assim, com tanta pressa.

Ao fim de uma pequena eternidade, o sinal fechou para os carros e começamos a travessia. O rapaz me segurou pelo braço. Parece ser essa uma boa tática dos deficientes visuais, porque você acaba indo à frente, e eles não se sentem presos, tendo alguém como referência para seguir o caminho.

Terminamos as duas faixas de avenida, e ele se despediu da moça, que disse que seguiria por outra rua. Não perguntei seu nome. Pensei ser intimidade demais. Ele quis saber onde eu estudava, e eu expliquei. O rapaz não fez comentários. Espero não ter soltado besteiras do tipo: “ah, minha aula é ali, naquele prédio azul do banco tal...”. Subimos conversando sobre os buracos na calçada. E ele concordou, contando que havia trechos ainda piores em outros pontos da cidade.

Eu, cheio de cuidados, e ele parecendo mais firme nos passos que eu. Falei que seguiria até mais à frente. E ele, que ficaria na próxima quadra. Caminhamos um bom tempo em profundo silêncio. Logo chegamos à tal esquina. E qual não foi meu espanto? Não precisei falar que havíamos chegado. Simplesmente, ele sabia. Então ele me agradeceu, largou meu braço e se virou, descendo a rua. “Vai com Deus”, me despedi.

Fiquei intrigado. Prossegui em direção ao ponto de ônibus, imaginando mil coisas. Talvez ele contasse os passos ou aguçasse a audição. Eu me lembrei do caso de uma senhora. Apesar de não enxergar, ela passava roupas com habilidade, sem se queimar ou estragar o tecido, segundo minha mãe.

Desatento, tropecei num paralelepípedo saliente e quase meti os joelhos no chão.

Pedro Antônio de Oliveira

29.2.20

Por onde for


A graça se revela em harmonia
Alvorecendo a beleza em cores
Quero levar você em todo dia
A vida inteira na estação das flores.

Descanso o teu olhar no meu sem dizer adeus
Que o tempo põe a mesa pra nós dois...

Lorena Chaves

24.2.20

Uma história real sobre anjo


Descobri que tenho um anjo da guarda. Nas horas de aperto, dizem que é só chamar por ele.

Uma vez, na saída de um shopping, dois zonzos, meu primo e eu chamamos a atenção de meio planeta; ai que vergonha! Quase fomos atropelados. Sorte que eu o puxei pela camisa. O som da freada do carro foi horrível! Até hoje ecoa em meus ouvidos. Depois daquela façanha, com um pouquinho mais de treino, poderíamos facilmente seguir a profissão de dublê. Mas fiquei pensando... será que foi o anjo? Será que foi ele quem soprou no meu ouvido: “segura aí esse distraído ou ele vai quebrar umas costelas!”?

Quantas vezes, bem na hora de sair de casa, perdi minha carteira ou as chaves e, por isso, ficava um tempão procurando os objetos desaparecidos. Será que era o anjo me atrasando para evitar algum acidente ou assalto? Anjo faz isso? Bagunça a vida da gente pra nos livrar de apuros? Ou são simplesmente minhas trapalhadas? Dizem que se a gente não ligar pra ele, o coitado do anjo fica sem graça, se sente esquecido, pensando que não é importante e, daí, acaba dando no pé.

Um dia, quando ia pra escola, aconteceu algo também bastante esquisito, desta vez, esquisitíssimo. Era uma manhã dessas normais, após uma noite de muita chuva, em que os semáforos, alucinados, ignoravam a pressa dos carros e dos pedestres.

Quando percebi que o sinal de trânsito não estava funcionando direito, fiquei nervoso. Foi como se as lembranças do quase-atropelamento em frente ao shopping brotassem de novo na minha cabeça.

Depois de algum tempo, consegui atravessar uma das faixas e fiquei no canteiro central, esperando uma oportunidade pra me livrar daquela fria. O vento dos automóveis e o barulho dos motores me davam arrepios.

Alguns malucos aventureiros se arriscavam, tirando lasquinhas nos veículos, e os veículos tirando lasquinhas neles. Meu coração pulsava de medo, querendo fugir pela boca. Ao meu lado, um desconhecido puxou conversa e alertou: “Cuidado, garoto, não atravesse agora!”. Olhei pra ele e pensei: “quem é esse sujeito, meu Deus?”. Ele continuou: “Espere só um pouquinho. Logo a gente consegue atravessar com segurança. Eu morro de medo. Você não?”. Nem respondi, porque fiquei surpreso com aquele estranho falando comigo.

Bem, e foi assim que, após alguns segundos, cruzamos a via juntos. Fomos em silêncio pela calçada. Àquela altura do campeonato, já havia me acalmado. Até me esqueci do medo e troquei duas ou três palavras com o tal cara. Meu ônibus surgiu e me apressei pra não perdê-lo. Antes, resolvi me despedir do rapaz que atravessou comigo a avenida; afinal, ele tinha sido simpático.

O ponto estava lotado e não consegui mais avistá-lo. Entrei no lotação, passei pela roleta com o olhar fixo na multidão lá fora. O homem tinha desaparecido. Mas, como? Pra onde? Não havia outro ônibus no qual ele pudesse ter se metido. Não havia outra rua pela qual ele pudesse ter seguido.

O coletivo arrancou devagarinho e meu pensamento de novo se perdeu de espanto. Será que era ele, meu anjo da guarda dando sopa? De novo?

Pedro Antônio de Oliveira

Curiosidade: Dizem que meu anjo da guarda se chama Haiaiel. É fácil descobrir. Existem muitos sites por aí que revelam quem é seu anjo da guarda, bastando informar a data de nascimento. O anjo Haiaiel confunde o mal e ajuda todos que querem se livrar de pessoas que praticam a maldade. Incentiva a ter garra e perseverança na luta em favor da paz e para alcançar os objetivos na vida. O influenciado por esse anjo será livre de perversidade ou negatividade. Ele trabalha para Deus com inteligência e coragem para superar a opressão e a servidão. Terá a proteção divina para tomar a decisão certa. Libertará os fracos e oprimidos superando as adversidades. Protege e leva à vitória, com braveza e coragem.

21.2.20

À sombra de um jatobá


Raios de sol na varanda
Verde cobrindo o jardim
Poder sentir a vida espreguiçar.

Com o cheiro da madrugada
Dama-da-noite, jasmim
Olhar no céu estrelas pra contar.

Ter meus amigos comigo
Quem amo me amando, sim
Longe do amor de quem nos finge amar.

Ver na manhã de um domingo
Meu filho sorrir pra mim
Depois dormir à sombra de um jatobá.

Poucas coisas valem a pena
O importante é ter prazer
Longe de mim a inveja e a maldade escondidas na vida
Hoje estamos nós em cena e não há tempo a perder
Pois tudo acaba mesmo sempre em despedida.

Toquinho

16.2.20

Telhados de Paris


Venta, ali se vê
Aonde o arvoredo inventa um balé
Enquanto invento aqui pra mim
Um silêncio sem fim
Deixando a rima assim
Sem mágoas, sem nada
Só uma janela em cruz
E uma paisagem tão comum
Telhados de Paris
Em casas velhas, mudas
Em blocos que o engano fez aqui
Mas tem no outono uma luz
Que acaricia essa dureza cor de giz
Que mora ao lado, mas parece outro país
Que me estranha, mas não sabe se é feliz
E não entende quando eu grito
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
O tempo se foi
Há tempos que eu já desisti
Dos planos daquele assalto
De versos retos, corretos
E o resto de paixão, reguei
Vai servir pra nós
E o doce da loucura é teu, é meu
Pra usar a sós
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
Venta...
Venta...
Venta...

Zélia Duncan

10.2.20

Só você vai entender


Eu gosto de coisas galácticas. 
De estrelas, cometas, planetas e luas. 
Amo também naves imperiais que me levam de futuro a futuro. 
E por lá, não há motivos para temer.
Até nem me lembro direito das coisas tristes que já vi pela TV. 
Eu converso em várias línguas com gente de canto a canto do infinito. 
Ah... viajar é tão bonito. 

Pedro Antônio de Oliveira

Uma abraço de coragem


E dizem que um anjo trazendo um sol nas palavras ergueu o menino.
Foi numa manhã de domingo, aparentemente comum.
Com seus poderes de anjo, falou entre um sonho e outro, no restinho de sono, coisas tão bonitas que pareciam água matando a sede. O menino achava que já tinha perdido toda aquela ilusão que o acompanhara desde os primeiros passos. O menino achava que já tinha perdido. Mas ele se esqueceu do anjo que nascera antes dele e que, lá das altas nuvens, tinha feito uma promessa: jamais abandonar seu protegido. O anjo, antes de mais nada, era seu melhor amigo.

Pedro Antônio de Oliveira

1.2.20

O crime não compensa



Nunca suportei ver alguém ao meu lado mendigando cola. Esse meu coração de manteiga de garrafa ainda iria me botar em maus lençóis, era só questão de tempo. Bastava começar a prova e eu podia dar adeus ao sossego. A todo momento, chegavam papeizinhos e cochichos suplicando as respostas das questões. Todos com cara de cachorro que caiu da mudança e esfolou o focinho. Alguns, mais desesperados, só faltavam derramar lágrimas.

E foi assim que um belo dia a professora de Português descobriu que minha prova e a de uma protegida, leia-se: “coleguinha sanguessuga”, estavam identicamente iguais. Oh, céus! Que coincidência! Fiz cena de espanto misturada à de pobre coitado, vítima em último grau daqueles aproveitadores, embora estivesse tremendo de verdade.

A enfurecida mestra nos deu um minuto e meio para uma exibição de nossas técnicas de telepatia. Só assim, para eu me livrar da acusação de cola, já que nossas provas estavam perfeitamente cara de uma, focinho da outra, até na posição das vírgulas.

Eu poderia ter dito que éramos irmãos, digamos, quase siameses, e que por isso fazíamos tudo quase sempre igual, de tanta afinidade e frequência positiva de energias, mas não ia colar.

Fiquei triste porque todo o meu passado de glórias escorria pelo ralo. O que adiantou tanto esforço nos saraus de poesia, na peça de teatro e nas apresentações de trabalho, se havia me tornado oficialmente, em poucos minutos, um criminoso comum, um legítimo colador.

Ela ameaçou:

_ Então, por enquanto, os dois estão com zero. Se não aparecer o culpado, os dois fazem de novo a prova, OK?

OK nada. Estava num mato sem cachorro. Não tinha coragem de entregar a M. (prefiro assim, não citar o nome dela). Afinal, ela era minha amiga. E, no fundo, no fundo, eu também era culpado, porque poderia simplesmente ter me negado a passar a cola. Por estar sempre tão disposto a ajudar todo mundo é que acabei mantendo essa rotina criminosa em sala de aula. Por milésimos de segundo, fiquei com um pouco de raiva dela por ter me colocado naquela fria. Eu não precisava passar por aquilo.

_ E aí? Vão permanecer calados?

Meu coração disparou. Não estava acostumado a ouvir a professora falando naquele tom. Arrisquei e quebrei o silêncio:

_ Professora, eu não colei de ninguém, disse pausadamente, em tom forte, mistura de medo e raiva.

Minha colega, pivô de todo aquele tribunal de justiça, cavou minha liberdade:

_ Fui eu, professora. Eu errei. Pode me aplicar de novo a prova.

Ufa! Respirei aliviado. Que ironia! Uma cola me fez aprender a lição.

Pedro Antônio de Oliveira

29.1.20

O cinza das rosas


Cuidei delas com carinho. Toda tarde, namorava os botões dourados de fim do dia, à espera de uma explosão de pétalas e cores. O vento sacudia o caule e eu morria de medo de que elas se desmanchassem de repente. Podei muitas vezes seus excessos. Molhei a terra seca em meados de agosto, tempo em que a chuva se esquece da gente, deixando tudo nublado de poeira.

Mas foram aqueles meninos, os piores vilões da rua, sórdidos e invencíveis, que puseram fim ao meu poema maior. A rechonchuda invadiu o jardim num chute certeiro, num arremesso feroz, atingindo em cheio minhas bailarinas.

Tudo aconteceu bem diante dos meus olhos. As flores, amassadas, agonizaram no chão. E, por cima, lá estava ela, aquela assassina horrorosa. Nem foi preciso chamar os agressores. Três caras lavadas apontaram nas frestas do muro. Um deles perguntou se uma bola havia caído por ali.

Apenas abri o portão e os deixei entrar. Sem dizer uma só palavra, apontei o estrago, cobrando, com o silêncio e o choro contido, explicações para tanta maldade. Eu estava tão triste que os garotos notaram meu jeito.

O mais jovem retirou a bola de cima das roseiras amarrotadas. Sobrou apenas um botão. A bola não se machucou. Os espinhos não se defenderam, pois ainda não tinham aprendido a guerrear.

Os meninos foram embora sem dizer nada. Nunca me esqueci daquele dia em que minha paz foi ameaçada.

Pedro Antônio de Oliveira

26.1.20

Para a vida toda


Eu tenho uma amiga que garante que sou para ela uma espécie de mago-professor. Não me lembro direito de uma porção de coisas que ela me conta, mas deve ser tudo verdade. Afinal, ela tem uma memória de elefante nerd: guarda as datas de aniversário de todo mundo e decorou dezenas de letras em inglês de seus cantores favoritos. Pra mim, isso é uma proeza.

Uma de suas mais valiosas lembranças é que eu teria ensinado a ela a amarrar o cadarço do tênis. Aquele lacinho passando engenhosamente um dentro do outro, formando uma borboletinha. Algo sublime, ela garante, porque sempre sonhou em amarrar o calçado sem a ajuda dos outros, e nunca conseguia. Ora veja, que bobagem sem fim (pra mim). Pra ela, não! Porque ela, logo que venceu esse desafio, sentiu-se mais livre do que se tivesse experimentado um voo de paraglider sobre o Atlântico. Mais que isso, parecia ter se tornado a própria asa delta sobre o mar.

Segundo essa minha amiga, também a teria ensinado a andar de bicicleta, a jogar damas, videogame... e mais uma porção de coisas simples e incríveis. E a primeira vez que foi ao teatro, a um show de patinação no gelo, trem fantasma e ao circo, adivinhe quem a convidou?

Pois bem, essas primeiras vezes também guardam algo de recíproco. O meu primeiro engasgo quase mortífero com pipocas foi ao lado dessa amiga. Imagine nós dois debaixo da mesa da cozinha, numa folia maluca, quando uma sapeca pipoquinha travou meu fôlego, querendo acabar com a festa.

Quase caminhei por aquele túnel branco resplandecente, com uma luz na ponta, o qual todo mundo assegura que vê quando se está à beira do além. Eu pulei feito uma legítima pipoca de panela. Fui ficando roxo, roxo... e me arrastei até o filtro, implorando por água e ar. E minha amiga, gente, delirando de rir. Ela nem esticou o braço para me salvar.

Depois que o pânico da morte passou, ela só conseguia enxugar as lágrimas da convulsão de risos. Eu devia ter riscado seu nome da minha lista de amigos com uma caneta esferográfica vermelha, mas ela é tão especial, tão amiga que...

Pedro Antônio de Oliveira

16.1.20

Saudade


Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.

Mia Couto

23.12.19

Canto de Natal


O nosso Menino
Nasceu em Belém
Nasceu tão somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso Menino
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz
O nosso Menino
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino
Louvemos a glória
De Jesus Menino.

Manuel Bandeira

Doar-se


É urgente que as pessoas se amem
sem vergonha e sem tristeza
Que se amem com orgulho...

É urgente partilhar o pão e o corpo
com a claridade da terra molhada
nas manhãs de sol.

É urgente assumir a verdade.

Manuela Amaral

20.12.19

Contemplação


O tempo é uma criança
que o eterno em sua dança
balbucia
sobre o abismo
que anima este eterno movimento
sopro do vento e um centro fixo:
poço do infinito.

Dora Ferreira da Silva