21.1.21
Amor nosso
12.1.21
O jangadeiro

1.1.21
Evocação mariana

24.12.20
Feliz Natal!
17.12.20
Nadador
10.12.20
Poema do beco

Que importa a paisagem, a Glória, a baía, a linha do horizonte?
Escapulário

8.12.20
Bicho encantado
Repenso o mundo

19.11.20
Invisivelmente, amor

12.11.20
Todas as manhãs

2.11.20
Sem barreiras para a leitura e a imaginação
31.10.20
Plenitude

De não precisar de mais nada
De estar sempre a gingar
Numa rede presa à Lua.
Pedro Antônio de Oliveira
25.10.20
Além do viver
19.10.20
Breu

12.10.20
Haverá quem duvide...

Que seu coração volte a se lembrar

14.9.20
A primeira vez da idade

1.9.20
Tecelã

30.8.20
A menina dos potes de mel
Ela caminhava como uma estrela sozinha, deixada para trás pelos irmãos mais velhos. O sol era tão forte que, de vez em quando, ela parava um pouco à sombra de uma castanheira para limpar o suor que banhava a pele jovem de menina.
A doçura daquela missão tinha muito a ver com os potes de mel que vendia. Tudo era produzido pelo pai, ferroviário, no quintal de sua casa. A mãe era tecelã, uma zelosa dona de casa com seus seis filhos. O pai, por força da necessidade, logo se revelou um habilidoso regente de uma orquestra feita de ouro. Passeava entre os caixotes de abelhas como quem protegia crianças num berçário.
A filha mais nova se esforçava para convencer seus potenciais clientes.
– É ótimo para curar gripe, garganta inflamada, tosse e nariz escorrendo – dizia a garota completamente vermelha da quentura do meio da tarde. Tão pequena ainda, mas tão determinada a se tornar uma vendedora de respeito. Às vezes, botava os potes dourados no chão para conseguir escalar a ladeira.
– Compra, compra de mim um pote de mel. É muito bom para a saúde, curar chieira no peito, fortalecer menino que nasceu franzino e desgrudar pigarro esfolando a goela.
Não havia quem não se comovesse ao ver aquela mocinha frágil, custando a carregar a saborosa mercadoria, arrastando seus chinelos velhinhos sobre a terra grosseira.
– Quando a gente está quase gripando, minha mãe derrete bastante mel no leite quente, mistura umas folhas verdes e dá esse chá pra gente beber.
Animados, os crédulos fregueses perguntavam:
– É mesmo? E vocês melhoram?
E com a transparência de um pequeno anjo esquecido na Terra, ela respondia:
– Ah... nada!
Arrancando risos de todo mundo, diante de tamanha sinceridade, a jovem vendedora ia colecionando sorrisos de estranhos pelo caminho, enquanto via, um a um, os potes de mel desaparecendo da sacola. Ela voltava para casa com os bolsos cheios de dinheiro, na certeza de ter vendido muito mais que a doçura daquele néctar dos deuses, ao distribuir de brinde a leveza e a inocência da infância.
(Esta é uma história verdadeira. Minha mãe é a menina dos potes de mel.)
Pedro Antônio de Oliveira




