21.2.20

À sombra de um jatobá


Raios de sol na varanda
Verde cobrindo o jardim
Poder sentir a vida espreguiçar.

Com o cheiro da madrugada
Dama-da-noite, jasmim
Olhar no céu estrelas pra contar.

Ter meus amigos comigo
Quem amo me amando, sim
Longe do amor de quem nos finge amar.

Ver na manhã de um domingo
Meu filho sorrir pra mim
Depois dormir à sombra de um jatobá.

Poucas coisas valem a pena
O importante é ter prazer
Longe de mim a inveja e a maldade escondidas na vida
Hoje estamos nós em cena e não há tempo a perder
Pois tudo acaba mesmo sempre em despedida.

Toquinho

16.2.20

Telhados de Paris


Venta, ali se vê
Aonde o arvoredo inventa um balé
Enquanto invento aqui pra mim
Um silêncio sem fim
Deixando a rima assim
Sem mágoas, sem nada
Só uma janela em cruz
E uma paisagem tão comum
Telhados de Paris
Em casas velhas, mudas
Em blocos que o engano fez aqui
Mas tem no outono uma luz
Que acaricia essa dureza cor de giz
Que mora ao lado, mas parece outro país
Que me estranha, mas não sabe se é feliz
E não entende quando eu grito
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
O tempo se foi
Há tempos que eu já desisti
Dos planos daquele assalto
De versos retos, corretos
E o resto de paixão, reguei
Vai servir pra nós
E o doce da loucura é teu, é meu
Pra usar a sós
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
Eu tenho os olhos doidos, doidos, doidos, já vi
Meus olhos doidos, doidos, doidos, são doidos por ti
Venta...
Venta...
Venta...

Zélia Duncan

10.2.20

Só você vai entender


Eu gosto de coisas galácticas. 
De estrelas, cometas, planetas e luas. 
Amo também naves imperiais que me levam de futuro a futuro. 
E por lá, não há motivos para temer.
Até nem me lembro direito das coisas tristes que já vi pela TV. 
Eu converso em várias línguas com gente de canto a canto do infinito. 
Ah... viajar é tão bonito. 

Pedro Antônio de Oliveira

Uma abraço de coragem


E dizem que um anjo trazendo um sol nas palavras ergueu o menino.
Foi numa manhã de domingo, aparentemente comum.
Com seus poderes de anjo, falou entre um sonho e outro, no restinho de sono, coisas tão bonitas que pareciam água matando a sede. O menino achava que já tinha perdido toda aquela ilusão que o acompanhara desde os primeiros passos. O menino achava que já tinha perdido. Mas ele se esqueceu do anjo que nascera antes dele e que, lá das altas nuvens, tinha feito uma promessa: jamais abandonar seu protegido. O anjo, antes de mais nada, era seu melhor amigo.

Pedro Antônio de Oliveira

1.2.20

O crime não compensa



Nunca suportei ver alguém ao meu lado mendigando cola. Esse meu coração de manteiga de garrafa ainda iria me botar em maus lençóis, era só questão de tempo. Bastava começar a prova e eu podia dar adeus ao sossego. A todo momento, chegavam papeizinhos e cochichos suplicando as respostas das questões. Todos com cara de cachorro que caiu da mudança e esfolou o focinho. Alguns, mais desesperados, só faltavam derramar lágrimas.

E foi assim que um belo dia a professora de Português descobriu que minha prova e a de uma protegida, leia-se: “coleguinha sanguessuga”, estavam identicamente iguais. Oh, céus! Que coincidência! Fiz cena de espanto misturada à de pobre coitado, vítima em último grau daqueles aproveitadores, embora estivesse tremendo de verdade.

A enfurecida mestra nos deu um minuto e meio para uma exibição de nossas técnicas de telepatia. Só assim, para eu me livrar da acusação de cola, já que nossas provas estavam perfeitamente cara de uma, focinho da outra, até na posição das vírgulas.

Eu poderia ter dito que éramos irmãos, digamos, quase siameses, e que por isso fazíamos tudo quase sempre igual, de tanta afinidade e frequência positiva de energias, mas não ia colar.

Fiquei triste porque todo o meu passado de glórias escorria pelo ralo. O que adiantou tanto esforço nos saraus de poesia, na peça de teatro e nas apresentações de trabalho, se havia me tornado oficialmente, em poucos minutos, um criminoso comum, um legítimo colador.

Ela ameaçou:

_ Então, por enquanto, os dois estão com zero. Se não aparecer o culpado, os dois fazem de novo a prova, OK?

OK nada. Estava num mato sem cachorro. Não tinha coragem de entregar a M. (prefiro assim, não citar o nome dela). Afinal, ela era minha amiga. E, no fundo, no fundo, eu também era culpado, porque poderia simplesmente ter me negado a passar a cola. Por estar sempre tão disposto a ajudar todo mundo é que acabei mantendo essa rotina criminosa em sala de aula. Por milésimos de segundo, fiquei com um pouco de raiva dela por ter me colocado naquela fria. Eu não precisava passar por aquilo.

_ E aí? Vão permanecer calados?

Meu coração disparou. Não estava acostumado a ouvir a professora falando naquele tom. Arrisquei e quebrei o silêncio:

_ Professora, eu não colei de ninguém, disse pausadamente, em tom forte, mistura de medo e raiva.

Minha colega, pivô de todo aquele tribunal de justiça, cavou minha liberdade:

_ Fui eu, professora. Eu errei. Pode me aplicar de novo a prova.

Ufa! Respirei aliviado. Que ironia! Uma cola me fez aprender a lição.

Pedro Antônio de Oliveira

29.1.20

O cinza das rosas


Cuidei delas com carinho. Toda tarde, namorava os botões dourados de fim do dia, à espera de uma explosão de pétalas e cores. O vento sacudia o caule e eu morria de medo de que elas se desmanchassem de repente. Podei muitas vezes seus excessos. Molhei a terra seca em meados de agosto, tempo em que a chuva se esquece da gente, deixando tudo nublado de poeira.

Mas foram aqueles meninos, os piores vilões da rua, sórdidos e invencíveis, que puseram fim ao meu poema maior. A rechonchuda invadiu o jardim num chute certeiro, num arremesso feroz, atingindo em cheio minhas bailarinas.

Tudo aconteceu bem diante dos meus olhos. As flores, amassadas, agonizaram no chão. E, por cima, lá estava ela, aquela assassina horrorosa. Nem foi preciso chamar os agressores. Três caras lavadas apontaram nas frestas do muro. Um deles perguntou se uma bola havia caído por ali.

Apenas abri o portão e os deixei entrar. Sem dizer uma só palavra, apontei o estrago, cobrando, com o silêncio e o choro contido, explicações para tanta maldade. Eu estava tão triste que os garotos notaram meu jeito.

O mais jovem retirou a bola de cima das roseiras amarrotadas. Sobrou apenas um botão. A bola não se machucou. Os espinhos não se defenderam, pois ainda não tinham aprendido a guerrear.

Os meninos foram embora sem dizer nada. Nunca me esqueci daquele dia em que minha paz foi ameaçada.

Pedro Antônio de Oliveira

26.1.20

Para a vida toda


Eu tenho uma amiga que garante que sou para ela uma espécie de mago-professor. Não me lembro direito de uma porção de coisas que ela me conta, mas deve ser tudo verdade. Afinal, ela tem uma memória de elefante nerd: guarda as datas de aniversário de todo mundo e decorou dezenas de letras em inglês de seus cantores favoritos. Pra mim, isso é uma proeza.

Uma de suas mais valiosas lembranças é que eu teria ensinado a ela a amarrar o cadarço do tênis. Aquele lacinho passando engenhosamente um dentro do outro, formando uma borboletinha. Algo sublime, ela garante, porque sempre sonhou em amarrar o calçado sem a ajuda dos outros, e nunca conseguia. Ora veja, que bobagem sem fim (pra mim). Pra ela, não! Porque ela, logo que venceu esse desafio, sentiu-se mais livre do que se tivesse experimentado um voo de paraglider sobre o Atlântico. Mais que isso, parecia ter se tornado a própria asa delta sobre o mar.

Segundo essa minha amiga, também a teria ensinado a andar de bicicleta, a jogar damas, videogame... e mais uma porção de coisas simples e incríveis. E a primeira vez que foi ao teatro, a um show de patinação no gelo, trem fantasma e ao circo, adivinhe quem a convidou?

Pois bem, essas primeiras vezes também guardam algo de recíproco. O meu primeiro engasgo quase mortífero com pipocas foi ao lado dessa amiga. Imagine nós dois debaixo da mesa da cozinha, numa folia maluca, quando uma sapeca pipoquinha travou meu fôlego, querendo acabar com a festa.

Quase caminhei por aquele túnel branco resplandecente, com uma luz na ponta, o qual todo mundo assegura que vê quando se está à beira do além. Eu pulei feito uma legítima pipoca de panela. Fui ficando roxo, roxo... e me arrastei até o filtro, implorando por água e ar. E minha amiga, gente, delirando de rir. Ela nem esticou o braço para me salvar.

Depois que o pânico da morte passou, ela só conseguia enxugar as lágrimas da convulsão de risos. Eu devia ter riscado seu nome da minha lista de amigos com uma caneta esferográfica vermelha, mas ela é tão especial, tão amiga que...

Pedro Antônio de Oliveira

16.1.20

Saudade


Que saudade
tenho de nascer.
Nostalgia
de esperar por um nome
como quem volta
à casa que nunca ninguém habitou.
Não precisas da vida, poeta.
Assim falava a avó.
Deus vive por nós, sentenciava.
E regressava às orações.
A casa voltava
ao ventre do silêncio
e dava vontade de nascer.
Que saudade
tenho de Deus.

Mia Couto

23.12.19

Canto de Natal


O nosso Menino
Nasceu em Belém
Nasceu tão somente
Para querer bem.

Nasceu sobre as palhas
O nosso Menino
Mas a mãe sabia
Que ele era divino.

Vem para sofrer
A morte na cruz
O nosso Menino
Seu nome é Jesus.

Por nós ele aceita
O humano destino
Louvemos a glória
De Jesus Menino.

Manuel Bandeira

Doar-se


É urgente que as pessoas se amem
sem vergonha e sem tristeza
Que se amem com orgulho...

É urgente partilhar o pão e o corpo
com a claridade da terra molhada
nas manhãs de sol.

É urgente assumir a verdade.

Manuela Amaral

20.12.19

Contemplação


O tempo é uma criança
que o eterno em sua dança
balbucia
sobre o abismo
que anima este eterno movimento
sopro do vento e um centro fixo:
poço do infinito.

Dora Ferreira da Silva

A libertação


Quando abri meus olhos para este mundo
e recebi sua luz, o movimento,
a comida, o amor, e toda palavra,
quem me diria que em todos os lugares
quebra o homem os acordos com a luz
constrói e continua com castigos.

Pablo Neruda

27.10.19

Saio por aí juntando flor por flor


E se eu quiser dizer que o universo
É feito pra você, só pra você
E se eu quiser dizer que o universo inteiro
Mora em você, só pra você
Assim como eu.

Cataflor - Tiago Iorc

7.10.19

Quando nos arrancam do chão


Polaroid - Jonas Blue

Às vezes os olhos da gente fotografam e o coração registra. Quantos sorrisos nos arrebatam sem ao menos sabermos o porquê. E vamos seguindo pela vida afora apenas imaginando qual o som daquela voz, qual será seu nome, seus sonhos, seu lugar no mundo. Misturados à paisagem, somos apenas uma foto vista de longe, a felicidade camuflada entre as muitas pessoas que passam, depois daquele encontro furtivo.

Pedro Antônio de Oliveira 

10.9.19

Natureza em perigo: Até quando?

Foto: EBC
A ocorrência cada vez mais frequente de catástrofes e de eventos climáticos, ameaçando a existência da humanidade, obriga-nos a refletir e a criar políticas de proteção ambiental, de forma a controlar o próprio clima e proteger o futuro do planeta. 

Está na hora de encarar o risco de nossa extinção. E está claro que nenhuma autoridade ou país resolverá o problema sozinho. A natureza está enviando recados. Todos estão avisados, mas ninguém se importa com o aumento de temperaturas, mudanças nos padrões climáticos, derretimento da calota polar, desgaste do solo, contaminação química de nossas terras e água, tampouco com a Amazônia em chamas e brasas, transformada em cinzas e fuligens. 

E justificar tragédias como vontade divina é tirar do homem a responsabilidade por suas escolhas. A natureza está enviando seus recados: se o sol não nascer amanhã, não é o fim do mundo, é o inicio!

Laurimar Rosa de Lima

De acordo com os dados do Programa de Queimadas do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), o mês de agosto de 2019 foi o que contou com o maior número de focos de incêndio na Amazônia nos últimos nove anos. Na comparação do período entre 1º de janeiro e 31 de agosto, a elevação foi de 111%. O estado do Acre é um dos mais afetados.



15.6.19

Escola da vida


Amor é o que se aprende no limite,
depois de se arquivar toda a ciência herdada, ouvida.
Amor começa tarde.

Carlos Drummond de Andrade

Colégio Franciscano Sagrada Família recebe de novo o "Pássaro das Sombras"

Fotos: Paula Fabrícia
Nem sempre eu tenho a oportunidade de estar com o leitor, conversar com ele, saber se gostou do livro, matar sua curiosidade a respeito de algum aspecto da história... enfim, sentir a energia de quem nos dá a honra de apreciar o que escrevemos.

Muita gente pensa que o autor é alguém distante, inacessível, que mora em outra cidade, ou mesmo um sujeito já bastante velhinho, que se isolou numa floresta ou no alto de uma montanha, só para produzir seus escritos. Que nada! Os autores estão por aí. Jovens ou vividos, vários guardam a empolgação de uma criança e costumam sair, sim, pelo mundo afora, ao encontro de seus maiores tesouros: os leitores.

Pela segunda vez, em menos de um ano, recebi um convite do Colégio Franciscano Sagrada Família, da Rede Clarissas Franciscanas, para um bate-papo com as turmas do quarto ano que leram o "Oreosvaldo, o Pássaro das Sombras", da Editora Lê.

Teve muita pergunta bacana, risadas e uma sessão de autógrafos. A meninada, inspirada pelo ilustrador da obra, Maurizio Manzo, criou lindos desenhos das personagens da trama, que enfeitaram vários pontos da biblioteca, local de nosso debate.

A garotada recebeu marcadores de páginas e um passatempo do "Pássaro das Sombras", que eu mesmo criei, contendo labirinto, caça-palavras, carta enigmática e poeminhas inéditos.

Não tenho palavras para agradecer a recepção calorosa dos estudantes e das funcionárias desse colégio tão simpático! Meu muito obrigado superespecial às professoras Talita e Gisely e às queridas Lindaura e Arlete, da biblioteca.

A todas as instituições que adotam meus livros, minha gratidão! Sei que diversas escolas já trabalharam com minhas obras por vários anos seguidos e ainda continuam me prestigiando.

Um afetuoso abraço!

O bate-papo aconteceu no fim do mês de maio e reuniu dezenas de alunos na biblioteca. O espaço foi todo decorado com a arte produzida pelas crianças cuja inspiração partiu das aventuras do poeta misterioso, o Pássaro das Sombras.


Pedro Antônio de Oliveira

25.5.19

Pensar é difícil, é por isso que as pessoas preferem julgar


“Pensar é difícil, é por isso que as pessoas preferem julgar “, escreveu Carl Gustav Jung. Na época da opinião, quando tudo é julgado e criticado, muitas vezes sem uma base sólida, sem uma análise prévia e sem um profundo conhecimento da situação, as palavras de Jung assumem maior destaque, tornando-se quase proféticas.

Julgar nos empobrece

Identificar o ato de pensar com o ato de julgar pode nos levar a viver em um mundo distópico, mais típico dos cenários imaginados por George Orwell do que da realidade. Quando os julgamentos suplantam o pensamento, qualquer indício se torna evidência, a interpretação subjetiva torna-se uma explicação objetiva e a mera conjectura adquire uma categoria de evidência.

À medida que nos afastamos da realidade e entramos na subjetividade, corremos o risco de confundir nossas opiniões com os fatos, tornando-nos juízes incontestáveis – e bastante parciais – de outros. Essa atitude empobrece o que julgamos e empobrecemos como pessoas.

Quando estamos muito focados em nós mesmos, quando deixamos de acalmar o ego, e ele adquire proporções excessivas, ou simplesmente temos muita pressa para nos impedir de pensar, preferimos julgar. Adicionamos rótulos duplos para catalogar coisas, eventos e pessoas em um espectro limitado de “bom” ou “ruim”, tomando como medida de comparação nossos desejos e expectativas.

Agir como juízes não apenas nos afasta da realidade, mas também nos impede de conhecê-la – e desfrutá-la – em sua riqueza e complexidade, transformando-nos em pessoas hostis – e não muito empáticos. Toda vez que julgamos algo, simplificamos a expressão mínima e fechamos uma porta para o conhecimento. Nós nos tornamos mero animalis iudicantis.
Pensar é um ato enriquecedor.

Na sociedade líquida em que vivemos, é muito mais fácil julgar, criticar rapidamente e passar para o próximo julgamento. O que não ressoa em nosso sistema de crenças nós julgamos como inútil ou estúpido e passamos para o seguinte. Na era da gratificação instantânea, o pensamento exige um esforço que muitos não estão dispostos – ou não querem – a assumir.

O problema é que os juízos são tarefas interpretativas que damos a eventos, coisas ou pessoas. Cada julgamento é um rótulo que usamos para atribuir um valor – profundamente tendencioso – já que é um ato subjetivo baseado em nossos preconceitos, crenças e paradigmas. Julgamos com base em nossas experiências pessoais, o que significa que muitas críticas são um ato mais emocional que racional, a expressão de um desejo ou uma decepção.

Pensar, pelo contrário, exija reflexão e análise. Mais uma dose de empatia com o que foi pensado. É necessário separar o emocional dos fatos, lançar luz sobre a subjetividade adotando uma distância psicológica essencial.

Para Platão, o homem sábio é aquele que é capaz de observar tanto o fenômeno quanto sua essência. Uma pessoa sábia é aquela que não apenas analisa as circunstâncias contingentes, que geralmente são mutáveis, mas é capaz de rasgar o véu da superficialidade para alcançar o mais universal e essencial.

Portanto, o ato de pensar tem um enorme potencial enriquecedor. Através do pensamento, tentamos chegar à essência dos fenômenos e das coisas. Vamos além do percebido, superamos essa primeira impressão para mergulhar nas causas, efeitos e relacionamentos mais profundos. Isso exige uma árdua atividade intelectual através da qual crescemos como pessoas e expandimos nossa visão de mundo.

Pensar significa parar. Fazer silêncio. Prestar atenção. Controle o impulso de julgar precipitadamente. Pesar as possibilidades. Aprofundar nas coisas, com racionalidade e empatia.

O segredo está em “ser curioso, não crítico”, como disse Walt Whitman.

16.5.19

Ex-catador de papelão vende 60 livros por dia na rua


Foto: Odilon Tavares
Ele nunca leu um livro completo, mas folheia várias páginas todos os dias. Conhece diversos escritores e convive diariamente com um arsenal de 4 mil publicações. Vive rodeado de leitores e rejeita as teorias de que a leitura de papel está com os dias contados. “As pessoas querem ler, o problema é o preço do livro”, afirma o livreiro Odilon Tavares, que diariamente monta sua “livraria” no calçadão da rua Grão Mogol, na esquina com a avenida Contorno, na região Centro-Sul de Belo Horizonte.

O ex-catador de papelão instalou-se na região há pouco mais de um ano com o objetivo de ter um negócio próprio e divulgar a cultura. Todos os exemplares têm preço único: R$ 5. No início, vendia de três a cinco unidades por dia. Em pouco tempo esse volume deu saltos e hoje chega a vender diariamente 60 livros para público variado, que vai de crianças a idosos.


Geórgea Choucair

14.5.19

Cuidar dos pais


A minha mãe é a minha filha. Preciso de lhe dizer que chega de bolo de chocolate, chega de café ou de andar à pressa. Vai engordar, vai ficar eléctrica, vai começar a doer-lhe a perna esquerda.

Cuido dos seus mimos. Gosto de lhe oferecer uma carteira nova e presto muita atenção aos lenços bonitos que ela deita ao pescoço e lhe dão um ar floral, vivo, uma espécie de elemento líquido que lhe refresca a idade. Escolho apenas cores claras, vivas. Zango-me com as moças das lojas que discursam acerca do adequado para a idade. Recuso essas convenções que enlutam os mais velhos. A minha mãe, que é a minha filha, fica bem de branco, vermelho, gosto de a ver de amarelo-torrado, um azul de céu ou verde. Algumas lojas conhecem-me. Mostram-me as novidades. Encontro pessoas que sentem uma alegria bonita em me ajudar. Aniversários ou Natal, a Primavera ou só um fim-de-semana fora, servem para que me lembre de trazer um presente. Pais e filhos são perfeitos para presentes. Eu daria todos os melhores presentes à minha mãe.

Rabujo igual aos que amam. Quando amamos, temos urgência em proteger, por isso somos mais do que sinaleiros, apontando, assobiando, mais do que árbitros, fiscalizando para que tudo seja certo, seguro. E rabujamos porque as pessoas amadas erram, têm caprichos, gostam de si com desconfiança, como creio que é normal gostarmos todos de nós mesmos. Aos pais e aos filhos tendemos a amar incondicionalmente mas com medo. Um amigo dizia que entendeu o pânico depois de nascer o seu primeiro filho. Temia pelo azedo do leite, pelas correntes de ar, pelo carreiro das formigas, temia muito que houvesse um órgão interno, discreto, que disfuncionasse e fizesse o seu filho apagar. Quem ama pensa em todos os perigos e desconta o tempo com martelo pesado. Os que amam sem esta factura não amam ainda. Passeiam nos afectos. É outra coisa.

Ficar para tio parece obrigar-nos a uma inversão destes papéis a dada altura. Quase ouço as minhas irmãs dizerem: não casaste, agora tomas conta da mãe e mais destas coisas. Se a luz está paga, a água, refilar porque está tudo caro, há uma porta que fecha mal, estiveram uns homens esquisitos à porta, a senhora da mercearia não deu o troco certo, o cão ladra mais do que devia, era preciso irmos à aldeia ver assuntos e as pessoas. Quem não casa deixa de ter irmãos. Só tem patrões. Viramos uma central de atendimento ao público. Porque nos ligam para saber se está tudo bem, que é o mesmo que perguntar acerca da nossa competência e responsabilizar-nos mais ainda. Como se o amor tivesse agentes. Cupidos que, ao invés de flechas, usam telefones. E, depois, espantam-se: ah, eu pensei que isso já tinha passado, pensei que estava arranjado, naquele dia achei que a doutora já anunciara a cura, eu até fiz uma sopa, no mês passado até fomos de carro ao Porto, jantámos em modo fino e tudo.

Quando passamos a ser pais das nossas mães, tornamo-nos exigentes e cansamo-nos por tudo. Ao contrário de quem é pai de filhas, nós corremos absolutamente contra o tempo, o corpo, os preconceitos, as cores adequadas para a idade. Somos centrais telefónicas aflitas.

Queremos sempre que chegue a Primavera, o Verão, que haja sol e aqueçam os dias, para descermos à marginal a ver as pessoas que também se arrastam por cães pequenos. Só gostamos de quem tem cães pequenos. Odiamos bicharocos grotescos tratados como seres delicados. O nosso Crisóstomo, que é lingrinhas, corre sempre perigo com cães musculados que as pessoas insistem em garantir que não fazem mal a uma mosca. Deitam-nos as patas ao peito e atiram-nos ao chão, as filhas que são mães podem cair e partir os ossos da bacia. Porque temos bacias dentro do corpo. Somos todos estranhos. Passeamos estranhos com os cães na marginal e o que nos aproveita mesmo é o sol. A minha mãe adora sol. Melhora de tudo. Com os seus lenços como coisas líquidas e cristalinas ao pescoço, ela fica lindíssima. E isso compensa. Recompensa.

Comemos o sol. Somos, sem grande segredo, seres que comem o sol. Por isso, entre as angústias, sorrimos.

Valter Hugo Mãe